Arqueologia


O HOMEM E SEU MEIO [1]
A integração do homem com a natureza estimula a criação de expressões culturais tangíveis e intangíveis. O estabelecimento, paulatino e longo, de grupos de indivíduos, além da formação de sociedades, dentro de um processo de relações similares, dá lugar a culturas intimamente ligadas ao seu meio-ambiente. A preservação harmônica e indiferenciada desta relação, buscando uma visão global, é essencial para amparar qualquer forma de desenvolvimento sustentável.
Dentro desta proposta, se faz necessária também uma atenção especial para as ocupações de espaço por culturas diferenciadas. Nos dias de hoje as movimentações dos povos deram lugar, além da formação de uma população integrada, a de contínuos culturais e núcleos de minorias culturais, que poderão integrar-se ou não, mais ou menos lentamente, numa sociedade já estabelecida num determinado meio, e que com freqüência formam bolsões policulturais ou uniculturais, muitas vezes arcaizantes.
Para todas estas culturas são exigidos respeito e atenção, sem prioridades nem preconceitos, da mesma forma que é exigida uma ação similar para a biodiversidade, não apenas para a sobrevivência do Planeta Terra, mas para um mundo melhor e compartilhado.
No contexto da relação do homem e do meio em que vive, surge um novo componente que age substancialmente na marcação da memória: o objeto, coisa, obra ou produto, enfim, a criação que este homem realiza com os fins mais diversos, e nela embute seus desejos, suas habilidades, e que refletem sua ligação com o seu entorno — isto é, com seu meio-ambiente. Partindo daí — o Homem, sua obra e seu meio — tais elementos devem ser analisados de forma integrada, pois só através desta integração desenvolve-se uma história total, aquela do meio ambiente.
A análise deste tríplice relacionamento — o ser humano, sua cultura, a paisagem que o cerca — isto é o meio ambiente em que vive, torna necessários estudos simultâneos e interativos, que possam agir em conjunto não apenas para o conhecer e preservar este conjunto em suas afinidades, mas também para construir sua verdadeira história.
Para esta história, não são permitidas avaliações preconceituosas, nem projeções monodisciplinares, e sim utilizados amplos conceitos de tempo e espaço que estabeleçam a cronologia do homem em conjunto com a da natureza, integrando as respectivas evoluções, usando padrões que permitam construções históricas, de modo a situar e portanto complementar a verdadeira visão da evolução do Planeta Terra.
DO NOSSO INSTRUMENTO DE TRABALHO
Além do estudo científico das culturas e civilizações que se sucederam depois do aparecimento do homem, baseando-se, notadamente, nos vestígios materiais encontrados nas escavações, como diz a definição básica da arqueologia [2], o estudo analítico partindo destes vestígios materiais em sua relação integrada com o meio ambiente em que ele vive, cria, transforma, e é transformado, deu origem à arqueologia ambiental.
Embora os arqueólogos tenham tido de longa data, uma certa preocupação com o meio ambiente em que as culturas se desenvolveram, como se pode sentir em suas tentativas de reconstruir a história, foi muito recentemente que esta nova especialização, se desenvolveu, e passou a desempenhar um papel de grande importância como instrumento para demonstrar o desenvolvimento de um meio ambiente, a história da intervenção do ser humano ali, neste meio ambiente, suas ligações e decorrências, sua obra, ou melhor sua criação, seja objeto, ou monumento, passando a ser um dos mais poderosos construtores da denominada história ambiental.
Qualquer que seja seu tipo ou situação geográfica, esta visão mais abrangente da arqueologia torna-se um dos instrumentos de preservação e comunicação não apenas do indivíduo em si, mas do patrimônio natural e cultural de que ele faz parte. Através deste conhecimento o homem entanto que indivíduo, pode melhor contribuir para a sociedade ao possibilitar uma melhor compreensão das relações desta sociedade não apenas com o meio ambiente da qual participa diretamente, mas estabelecendo laços e comunicações com os demais.
Na luta pela preservação do Planeta em que o homem hoje busca uma forma de desenvolvimento sustentável, cabe a esta nova visão da arqueologia, em sua ação como elemento de pesquisa, o reconhecimento e a guarda da memória de toda a evolução histórica, contribuindo ativamente neste processo usando todos os seus meios de conhecimento, ação e comunicação para o impedimento de sua degradação.
Retomando a postura de suas origens, a arqueologia hoje deve firmar-se não só como elemento de análise e portanto de descoberta, mas também como elemento de preservação, referência, pesquisa e comunicação, e como fórum de idéias para os problemas essenciais da sobrevivência do ser humano e da natureza, de modo comparativo através de diferentes tempos, nos diferentes espaços. Foi baseando-se neste princípio que diversos cientistas vem trabalhando há alguns anos, buscando sempre uma relação interdisciplinar nas equipes, olhando e analisando o passado e o presente como fonte e desenvolvimento. Nesta análise o ser humano é encarado como criador e criatura, o meio ambiente como influenciador e influenciado, e o objeto, o produto, a obra do homem como um dos elementos primordiais de sua ligação com o meio em que vive, ou viveu, aquela que recebe a inspiração e marca a construção desta dupla — ou melhor, tripla — relação.
[1] Usa-se homem para indicar o ser humano em geral.
[2] Definição básica de arqueologia: Arckaios (antiga) e logos (ciência).
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