HISTÓRIA FLUMINENSE  Fontes de Pesquisa


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Carta de um admirador

16 de abril de 2017

Amigo Emmanuel,

Ora, ironias do destino. Foi preciso que você morresse para que eu descobrisse que sua primeira matéria assinada na imprensa foi sobre o pintor Antônio Parreiras, o grande paisagista cuja vida e a obra têm ocupado todo o meu percurso profissional, que aliás muito deve a você desde os longínquos tempos em que fui seu subordinado editorial como crítico de arte em jornal. A mesmo posição que ocupava, na crítica de cinema, o Jorge Roberto Silveira também muito ligado a você, a mim e a Parreiras.

Não me queixo de você ter ido tão cedo, sem pelo menos uma breve despedida, antecipada à maneira do Adiós muchachos na voz de Gardel. Afinal os tempos de hoje são muito ruins, inviáveis para intelectuais verdadeiramente eruditos e honestos. Afinal, o que significa cultura à sombra da lenta e inevitável dissolução de um gigantesco país das maravilhas potenciais, com o qual desperdiçamos tanto tempo amando e respeitando? Mais ainda, em um mundo que se lança enlouquecido no retorno à barbárie ou, por fim, acabará mesmo por conseguir a definitiva extinção da humanidade?

De qualquer modo ainda nos vimos pessoalmente, há cerca de dois meses aqui em casa, e para mim, percebo agora, foi uma estranha espécie de despedida. Os assuntos de conversa foram mais ou menos os mesmo de sempre; você tinha problemas por mais uma vez ter se envolvido em tarefas profissionais com pessoas que não mereciam o privilégio de sua orientação; nossa repetitiva e insolúvel falta de entendimento sobre como usar as tão úteis tecnologias da informação; minha chata insistência em temas de geopolítica e história militar, assuntos pelos quais você já se desinteressara há tantas décadas, em favor dos reveladores significados da história regional, sempre enganosamente singela.

Tudo pareceu normal, mas faltou algo muito importante, marcante e indispensável em nossos inúmeros contatos pessoais ou por cartas datilografadas, e-mails e longos telefonemas: em nenhum momento brilhou seu ácido sarcasmo, veloz e afiado como a navalha dos malandros do início da República Velha; nem compareceu meu típico extremismo agressivo, embora o tema do derradeiro livro que poderá ser publicado sob sua insatisfeita autoria fosse um perfeito disparador para minha fúria. Foi a única vez que senti, entre nós dois, a sensação de um mero encontro entre dois sujeitos oficialmente idosos, ambos com muito mais experiência e conhecimento do que seria possível ter para acreditar ser viável produzir qualquer coisa trivial ou efêmera, com autêntico entusiasmo.

Daí ter que ser mencionado o seu célebre, infindável e misterioso arquivo especializado sobre história fluminense, que já foi um dia o audacioso projeto para o Dicionário Histórico e Biográfico Fluminense. Tenho absoluta certeza que ninguém será capaz de lidar com ele, visto que nem mesmo você, o criador do sonho e da realidade em contínua luta solitária, jamais conseguiu torná-lo integralmente público. Nunca tive coragem de lhe dizer que sempre achei que esse projeto majestoso morreria com você. E foi isso que, em minha fria e realista opinião, acabou por acontecer. Desejo que pelo menos ninguém faça mal-uso dos despojos de sua magnum opus inacabada, pois em permanente evolução; que ela não se torne objeto de mais uma dessas abjetas homenagens hipócritas nas quais os brasileiros são mestres consumados.

O que me faz voltar a Antônio Parreiras. Tanto ele como você foram e continuam a ser reduzidos a um mínimo denominador comum: a cidade de Niterói. Tomar um dos maiores pintores brasileiros como um “artista niteroiense”, assim como considerar Emmanuel Macedo Soares um “historiador de Niterói”, tendo ele de fato sido por todos os méritos um aguerrido, valoroso e sem igual especialista em História Fluminense (para além dos estritos limites da antiga província e do atual Estado do Rio de Janeiro, durante séculos o único legítimo Brasil), são atitudes de pueril provincianismo.

Que eu me recorde não tivemos você e eu amigos e interlocutores comuns, à exceção de Jorge Roberto. No importante e belo livro dele, Vistas e paisagens da enseada de Niterói 1790-1920, sua colaboração generosa e rigorosa foi muito intensa, conforme a gratidão do autor reconheceu na introdução. Muito antes o mesmo já havia acontecido, em meu livro sobre Antônio Parreiras, com a diferença de que eu bem gostaria de ter sido menos conciso ao manifestar meu agradecimento. Enfim, essas são apenas duas publicações que não teriam atingido os méritos que possam ter, sem sua ajuda. Fico imaginando quantos mais livros de outros autores possuem as mesmas características, incluíndo aqueles que nem teriam podido ser concluídos.

Quanto às suas próprias publicações, que longe estou de conhecer todas, decerto algum amigo mais atento do que eu — e a posteridade decerto — haverá de compilar-lhes os títulos, temas e características bibliográficas. E por falar em posteridade, sempre impliquei com a frasezinha irritante, indevidamente alçada a axioma, de que “...ninguém é insubstituível”. Quem pensou e disse isso pela primeira vez, por filósofo da antiguidade que pudesse ter sido, inevitavelmente foi alguém bastante substituível... Para mim não cabe a menor dúvida que existiram e existem pessoas insubstituíveis, e você sem sombra de dúvida foi uma delas.

Fico surpreso que ninguém tenha notado que você também foi, sobretudo verbalmente ou em correspondência privada e em certos setores de jornalismo, uma espécie de H. L. Mencken brasileiro (o que também vale para críticos ferozes como Sílvio Romero e Agripino Grieco), com maior modéstia, muito menos presunção e nenhum dos proverbiais preconceitos norte-americanos. Agora termino esta carta lançada ao cosmos, com a satisfação da certeza de que se você está em algum lugar, não tenho dúvida de que será pelo menos muito melhor do que este país moribundo e este planeta condenado.

Ave Cæsar,
Carlos Roberto Maciel Levy