HISTÓRIA DA ARTE & LITERATURA  •  Maria Elizabete Santos Peixoto

Manga com Farinha

para Ana Peixoto

As cozinhas desconheciam a fórmica, as pias eram de mármore branco encardido nas estrias do uso, azulejos brancos cobriam dois terços das paredes, arrematados por frisos em preto e branco, o chão costumava ser coberto por pequeninas pastilhas de cerâmica desgastadas que, por sua vez, haviam sucedido aos belíssimos e resistentes pisos hidráulicos decorados. O mobiliário, basicamente de madeira pintada de branco, muitas vezes originava-se de um arranjo de antigas peças que perdiam notoriedade em face de novas modas e manias. Nesse compartimento comumente afastado da parte social das residências, lugar de criados pretos e perfumes excitantes de apetites dispostos, fomes de curiosidades, prazeres do paladar e tantos outros ainda a desvendar — uma danação para os gulosos — passava-se boa parte da infância, na companhia de descendentes da escravidão com suas histórias fantásticas. Fogos e vapores urbanos refogavam cheiros que carregamos a vida toda em saudades olfativas e afetivas, de intensidade comparável a uma amável assombração.

Benedita era a rainha-ébano desse pequeno unviverso de fundos de Copacabana, alvejado por tintas brancas, pastas e sapóleos que tudo limpavam e faziam luzir; o único cômodo que nunca foi aumentado ou deslocado de suas funções pelas reformas que vieram ao longo dos anos. Maranhense com pouco sotaque, corpo vigoroso em seus quase trinta anos, feições delicadas, dedos longos e ágeis, pele fascinante pela lisura exibida sob a água do tanque combinada com a luz do sol da tarde, seu ofício era a comida e as roupas de enxugar, comer e deitar; cuidava da intimidade dos instintos, intuições e sonhos. Dividia tarefas domésticas e revoltas historicamente acumuladas com a copeira que, por sua vez, dava conta da arrumação, da poeira e das roupas de vestir; mantinha formas e aparências em boa conservação. Vestiam uniformes, ambas, sem rigor. Às vezes partilhavam em harmonia devaneios noturnos no beliche, outras assumiam conflitos e ciúmes flagrantes.

Não sei quanto tempo Benedita governou nossa cozinha e minha infância. Parecia, naquela época, toda a vida, já que a vida era ainda tão curta que para nada servia como referência, menos ainda para medir o que sequer supunha que pudesse ter fim. Tudo era muito e grande diante do futuro gigante prometido ou anunciado, daí que a medida era a do desejo: ela ficaria pra sempre, na eternidade onírica ainda não maculada pelas certezas da transitoriedade. Sob a paixão e a proteção de sua presença, sentava-me no banquinho redondo e branquinho, entre o armário embutido da bateria de panelas e o de ferramentas e mantimentos para a preparação dos alimentos, lendo gibis e contos de grimm, mais uma iniciação ao prazer da leitura e à imersão em outras fantasias do que propriamente uma predileção pelos contos infantis, logo substituídos por temas mais picantes.

Recém-casada, contrariando os planos prescritos na inocência macia da juventude, cozinhei o primeiro feijão como se já o tivesse feito por toda a vida. Sem receita nem orientação, foi cozido no Leblon pela lembrança íntegra da fada negra de Copacabana — temperos ardendo na gordura que então não nos ameaçava com o inventário de medos que a ciência e a comunicação nos impuseram a partir do final do século XX. Nas abas laterais e móveis do fogão de quatro bocas, ela depositava diariamente, antes de misturar ao feijão, uma pequena porção de cebola e alho bem fritos e pelando, que eu devorava como se nectar fossem para uma deusa infante cujo olimpo limitava-se, com grande satisfação, à cozinha que produzia sabores e odores arrepiadamente sedutores.

Às quartas-feiras comíamos peixe por conta da feira que morou em nossa rua durante muitos anos, lembrança de estorvo e gratidão, quando pelos gritos dela fomos salvos do incêndio que devastou-nos a casa às vésperas do meu casamento. Beni fazia o peixe assado como a mãe indicava e mais gostava, não fosse esta filha de uma ilha do atlântico norte sub-tropical, de língua igual. Já a nativa das umidades sub-equatoriais assava com alegria o peixe que nós – eu e minha irmã – detestávamos, tanto quanto o bife de fígado sem texturas, o quiabo gosmento e o miolo à milanesa, engolidos com nojo, em nome do bem ao cérebro e em detrimento do mal que faziam aos gostos da nossa boca e dos nossos preconceitos.

Nessas mesmas quartas-feiras, dava-se regularmente o episódio que mais nos impressionava. Benedita reservava a cabeça do peixe, que depois de limpa dos pensamentos e dos olhos, e cozida, era coberta por um amontoado de farinha de mandioca crua, por cima e por todos os lados, e finalmente por ela saboreada como a mais rara das especiarias, gênero único de exotismo, só mesmo superado pela sobremesa que se seguia: manga em fatias abafadas pela mesma farinha e igualmente consumidas em regozijo. Essa extravagante experiência somada à herança paterna capixaba ou gaúcha do hábito da farinheira nas refeições podem explicar a origem da minha tara por farinha de mandioca, de qualquer jeito, sobre qualquer coisa, quente ou gelada, crua ou cozida, de dia ou de noite, exceto com manga ou cabeça de peixe.

Todas as vésperas de folgas eu enviava uma série de desenhos que fazia para Lídio, funcionário da marinha brasileira, marido de Benedita, que com ela morava em Niterói, a quem eu estimava em cega e aboluta confiança pelo amor que a ela devotava; que nunca conheci nem de vista nem de voz, e que filhos não tiveram, o que muito me intrigava mas não sabia formular a pergunta sobre o que me parecia o desvio do mais natural dos destinos; o mesmo que, como ela, não cumpri.

Na beirada da pia que àquela época não olhava para o emaranhado de mundos e fundos vizinhos, como após a primeira reforma, um dia perguntei a Benedita se xixi fazia filhos. Ouvira de amigas na escola alguma informação vaga sobre a morte das cegonhas, que não compreendera bem. Ela descascava chuchus, que àquela altura da investigação infantil devem ter transcendidos à categoria de pepinos ou abacaxis. Lavou as mãos dos espinhos e da goma do legume e explicou-me, pacientemente, em seu alfabeto limitado pelo empirismo de sua cultura, sem embaraço e com sensíveis eufemismos, que não era exatamente isso mas um misterioso líquido que fertilizava as mulheres e fazia nascer os bebês. Não fiquei de todo satisfeita, já que a enunciação dos métodos me foi ocultada, mas aprendi que urina, definitivamente, não criava vidas.

Nunca soube quando, como e por que Benedita Pereira Rodrigues foi embora de Copacabana. Foi, como as filhas da casa também foram em dias futuros a essas memórias, para construir cozinhas e famílias próprias, forrar paredes de fórmica, lajotar pisos, trocar pedras por alumínios, a chama do lento cozimento por elétricas micro-ondas, aderir ao estocamento e ao congelamento, abolir sal, toucinhos, ovos, açúcar e substituir a confiança e o afeto à beira das brazas borralheiras de quitutes e diálogos preparados em par, por mágicos e duvidosos confortos da modernidade. Mas dos carinhos das heranças de senzalas brasileiras e de uma intensa passagem por culturas bem mais ao norte de nossa tradição aristocrática, sairá, em breve, a reforma aqui na gávea, juntando cozinha e sala em um único ambiente de cheiros, sabores e aconchegos compartilhados.

Bete Peixoto

Publicado no livro A Magia da Palavra: contos, ensaios e poemas, Edição dos Autores, Rio de Janeiro, 2005, p.107-111.