HISTÓRIA DA ARTE & LITERATURA  •  Maria Elizabete Santos Peixoto

Freud e a Paragata

A fila única da rua Jardim Botânico, sentido Gávea-Botafogo, após as 17 horas, fazia daquele final de tarde de segunda-feira a mais legítima desarrumação no trânsito e na ansiedade da mulher, em seu percurso tumultuado para levar a efeito os distintos compromissos assumidos.

Praguejando, no táxi, por conta das escolhas equivocadas do motorista na direção de seus rumos, conseguiu, primeiramente e aos atropelos, largar nas mãos do ignaro porteiro da Frei Leandro, os potes de chantilly e o tabuleiro com duas apfelstrudel que acabara de assar em casa, sobremesa para o jantar de aniversário de Haroldo, a ser comemorado naquela noite.

O trajeto entre o Humaitá e a Real Grandeza, pela famigerada Voluntários da Pátria, deu-se de tal modo inusitado, em fluência desobstruída da habitual desordem, que favoreceu, no adiantado de alguns minutos, uma desventurada inspeção no saldo bancário para confirmar que, a dez dias do mês terminar, sua miséria já estava garantida na desguarnecida conta corrente.

Tropegando com alguma tensão na adaptação dos saltos finos e de número sete e meio da nova sandália, percorreu duas quadras e alcançou a entrada da vila que, em sua bizarra sobrevivência, abriga não somente uma atmosfera urbana de outrora como uma diversidade moderna de negócios, ateliês, consultórios etc.

Digitou o código de acesso automático, atravessou a antiga e estreita porta de madeira, cumprimentou com um “boa tarde” uma figura masculina sentada no acanhado recinto e verificou, contente, o êxito de sua mais recente conquista: a pontualidade; dois minutos para as 18 horas.

— Boa tarde ou boa noite? – indagou o homem, tão logo ela sentou-se.

Surpreendida com a pergunta, dispôs-se à prosa.

— Bem, considerando que estamos no horário de verão e o dia ainda está claro, podemos dizer boa tarde, não acha?

Silêncio, após uma expressão de dúvida metafísica sobre a questão.

— Que linda a sua sandália! – exclamou ele, com um entusiasmo tão arrebatador quanto desafiador das observações e cobiças femininas.

A mulher não conteve o riso espontâneo, tímida gargalhada, em vista de ação tão insólita, originária de um estranho que mal acabara de ver pela primeira vez, e não se furtou a atinar, para alinhavar alguma coerência, que ocupavam assentos na inóspita sala de espera do consultório dos respectivos psicanalistas.

Inicialmente suspeitou que o homem pudesse ter se interessado mais por seus pés do que propriamente pela sandália, embora concordasse com a belezura de seu novo calçado. Antes de julgá-lo prematuramente um tarado, fetichista, sexo-carente ou louco, decidiu dar seqüência ao diálogo, cujo ritmo intenso era mantido pelo encadeamento verbal frenético e objetivo do desconhecido.

— Muito obrigada, eu também gosto muito dela.

— Mulheres usam sandálias no verão e deve ser bom porque deixam os pés frescos, não é?

— Não há dúvida, eu particularmente adoro sandálias, aliás, as únicas coisas que gosto do verão são sandálias, flamboyants em flor e a espera ansiosa pelo outono.

— Mas a mulher possui uma roupa íntima a mais que o homem...

Ela duvidou por segundos do entendimento da observação, na série de agudos comentários do homem. Em curta pausa entre a queda da ficha e a próxima sentença, olhou-o com atenção, buscando deter quaisquer dados que o decifrassem. Fixou poucos detalhes: cabelos negros, certamente um sujeito com menos de quarenta anos, pele muito branca e óculos quase embutidos nos olhos, com armação estilo era Vargas, tão negra quanto o ébano dos cabelos.

— Hem? – ela perguntou.

— As mulheres têm que usar uma peça íntima a mais que os homens, o...

— Sutiã - falaram ambos, simultaneamente.

— É verdade – consentiu – mas, por outro lado, as mulheres usam roupas muito mais frescas e leves que os homens.

— Certo – disse ele – ternos, camisas e calças compridas. E no mesmo fôlego prosseguiu. - Desculpe, não me apresentei, meu nome é Hélio e o seu? – estendendo a mão para o cumprimento.

— Isabel – respondeu à saudação.

— O que você faz? – perguntou ele.

— Eu sou pesquisadora de música, e você?

— Eu sou professor de física.

— Ah! Que bom, onde você dá aulas?

— No momento, em nenhum lugar, só dou aulas particulares. E você, trabalha em algum instituto?

— Trabalho na seção de música da Biblioteca Nacional.

— Na Cinelândia? – perguntou o homem.

“Não, no prédio do antigo MEC”, estava na ponta da língua para atender à curiosidade do bisbilhoteiro, quando estancou em hesitações, ao mesmo tempo em que ouviu seu nome ser chamado dos altos da bela escada de peroba do campo.

Lépida, risonha e salva pela sincronicidade dos acasos, sobre o gracioso par de sandálias novas e os primeiros degraus da escada, respondeu:

— No centro da cidade. Prazer. Tchau.

Não sem antes ter percebido a combinação do gesto de mão e da expressão do rosto do homem, revelando flagrante desapontamento pelo fim do colóquio audacioso e disparatado.

Na caminhada de volta pela Voluntários esvaziada de gente e crepuscular, com o Cristo já aceso e disposto a guiar trilhas e atalhos desamparados, a mulher seguia imersa no prolongamento de reflexões sobre os enigmas abordados na penumbra do encontro terapêutico, quando subitamente lembrou-se do indiscreto homem e sua originalidade.

Desatou a rir e reatou com sucesso inesperado de memória todos os pormenores do curioso episódio. Uma caricatura lúdica e fiel das solidões cariocas.

Bete Peixoto

(Paragata: substantivo feminino. Regionalismo: Brasil. Uso: informal. Mesmo que alpercata. Ver sinonímia de sandália).

Publicado no livro A Magia da Palavra: contos, ensaios e poemas, Edição dos Autores, Rio de Janeiro, 2005, p.15-18.