para Cleonice Berardinelli
“Não deve haver vítimas,
quando não seja senão para impedir que haja tiranos”.
Eça de Queirós— Eu vou, mas eu volto —
disseste-me com voz erguida, um dia,
para me suspender, alentar e convencer
que da tua miúda confiança,
da tua meiga covardia,
da tua gagueira de verdades,
da tua estóica contenção,
escapava uma provisória convicção.neste súbito desembaraço,
fomos, ambos, cegos de precisão:
de medidas e necessidades.
por uma estação, um feliz verão,
voltaste todas as horas úteis,
e juntos consolamos distraídas urgências,
contentamos ávidos diálogos,
destinamos nossas abundâncias sutis.trocamos canções, versos e ternuras,
contamos casos e quimeras,
lemos o mundo em folgas exiladas
e devotadas aos amores de ânimos moços,
vozes sustenidas, gargalhadas e palavras e gozos
derramados em gestos e gemidos
sobre o cio das uvas e as seivas
das voltas da lua.indiferentes aos flagelos da sorte,
recusamos desenlaces de fastio.
ao calhar o limite das curtas liberdades
acolhemos nossas fatalidades
antes que nos engasgassem
os primeiros bocejos da saciedade.depois, nos despedimos em poemas e cartas,
notas líricas, repugnantemente sensatas,
fracas e recuadas ante a fúria das sucatas.
despejamos as cinzas cálidas, ainda,
das tintas de nossas caligrafias despregadas
nas sobras do verão curvado,
na impetuosa ressaca de maio,
à sombra do outono instalado.
— aquilo acabava em arnica!— separamo-nos há anos no cais do sodré —
dir-te-ei no reencontro mais futuro.
foste meu amor e nunca mais voltaste.Bete Peixoto