HISTÓRIA DA ARTE & LITERATURA  •  Maria Elizabete Santos Peixoto

Cais do Sodré

para Cleonice Berardinelli

“Não deve haver vítimas,
quando não seja senão para impedir que haja tiranos”.
— Eça de Queirós

— Eu vou, mas eu volto —
disseste-me com voz erguida, um dia,
para me suspender, alentar e convencer
que da tua miúda confiança,
da tua meiga covardia,
da tua gagueira de verdades,
da tua estóica contenção,
escapava uma provisória convicção.

neste súbito desembaraço,
fomos, ambos, cegos de precisão:
de medidas e necessidades.
por uma estação, um feliz verão,
voltaste todas as horas úteis,
e juntos consolamos distraídas urgências,
contentamos ávidos diálogos,
destinamos nossas abundâncias sutis.

trocamos canções, versos e ternuras,
contamos casos e quimeras,
lemos o mundo em folgas exiladas
e devotadas aos amores de ânimos moços,
vozes sustenidas, gargalhadas e palavras e gozos
derramados em gestos e gemidos
sobre o cio das uvas e as seivas
das voltas da lua.

indiferentes aos flagelos da sorte,
recusamos desenlaces de fastio.
ao calhar o limite das curtas liberdades
acolhemos nossas fatalidades
antes que nos engasgassem
os primeiros bocejos da saciedade.

depois, nos despedimos em poemas e cartas,
notas líricas, repugnantemente sensatas,
fracas e recuadas ante a fúria das sucatas.
despejamos as cinzas cálidas, ainda,
das tintas de nossas caligrafias despregadas
nas sobras do verão curvado,
na impetuosa ressaca de maio,
à sombra do outono instalado.
aquilo acabava em arnica!

— separamo-nos há anos no cais do sodré —
dir-te-ei no reencontro mais futuro.
foste meu amor e nunca mais voltaste.

Bete Peixoto