HISTÓRIA DA ARTE & LITERATURA  •  Maria Elizabete Santos Peixoto

Sinestesia

o senso, assanhado, desafoga em fôlegos,
sopros, soluços e suspiros em oxigenação.
dissipa-se, ainda encabulado e espavorido,
de gravidades e abreviaturas adiadas;
de graças travessas de gostar, e desassossegos,
íntimos dos inícios, primeiros cios,
e de lendas futuras, assombração.

transita entre avanços e recuos,
saliências e reentrâncias,
açoites e beijos.
foge, escapa e finge
que não vê, não lê, não ouve, não arrepia,
não tem sede e fome, não fareja.
acautela-se, entocado e intocado,
há muitas estações e medos.

um cruzamento de rubricas,
impressões consangüíneas e
saudades pressentidas de
sedas, jasmins, liszt, letras e melados
latejam a vida em ficção rimada,
consentem em secretos silêncios confessos
e lambem as palavras,
comem os sons,
devassam os cheiros,
chupam os toques,
sugam as paisagens,
devoram os sucos,
escutam os desejos,
e esticam mil gozos
até o nó nas tripas, nas línguas
e nas meigas sílabas caladas.

Bete Peixoto