HISTÓRIA DA ARTE & LITERATURA  •  Maria Elizabete Santos Peixoto

Hilda Eisenlohr Campofiorito (1901-1997)

Pintura de Hilda Campofiorito Dos anos durantes os quais tenho acompanhado de perto as atividades da artista, eis que surge, enfim, a oportunidade de deixar registrados, ainda que de modo bastante resumido, a admiração e o fascínio que me provocam a vida e a arte desta linda mulher de olhos azuis e de produção cristalina que é Hilda Campofiorito.

Em nada me constrange a circunstancial diferença de nosso tempo, mas, ao contrário, reafirma a aproximação que naturalmente mantenho com pessoas que, como ela, têm feito da dedicação sistemática e prazeirosa ao seu trabalho a razão de sua lúcida existência e de sua valiosa atuação artística.

Neste caso, por exemplo, creio que a opção pela pintura apenas seguiu o curso inevitável de uma verdadeira vocação. E nem poderia ter sido diferente, tamanha a relação de intimidade e espontaneidade que encontramos em suas obras. Quem possui o privilégio, como eu, de compartilhar alguns momentos do universo particular da artista, pode compreender com extrema clareza que a pintura de Hilda Campofiorito é exatamente o reflexo de sua personalidade: autêntica, calorosa, sensível e despojada.

De seu permanente contato com a natureza ela retira, na maior parte das vezes, os temas que deseja representar. Em muitas de suas naturezas-mortas pode-se identificar singelos objetos ou formas vegetais que recolhe em seus passeios matinais pela praia de Icaraí, além de conchas, raízes e até mesmo os peixes. As flores, presentes com exuberância em diversas telas desta exposição, definem com precisão o talento e a sensibilidade definitivos da pintora.

Com gosto e empenho, dedica-se à paisagem, exclusivamente como a percebe o seu olhar atento e o seu espírito doce. Na França, na Itália, em Goiás ou no interior do Estado do Rio, os horizontes são amplos e a interpretação de formas se articula em perfeita harmonia com a determinação das cores e seus matizes. E é sobretudo na questão do colorido e nos efeitos luminosos que alcança a partir da inter-relação de tons, que Hilda Campofiorito se distingue e se consagra.

Se Édson Motta a julgava "...exímia colorista, da estirpe de um Guignard", fato é que a cor, na obra da artista, transcente qualquer tipo de análise comparativa e, a bem da verdade, possui um caráter lírico tão próprio e peculiar que podemos considerá-la como a síntese essencial de sua plena liberdade de expressão.

Também encontramos nesta mostra alguns trabalhos que fixam impressões registradas do cotidiano social de nosso tempo: através deles, sejam lavouras ou intermináveis filas de feijão ou do INPS, a pintora mantém-se permanentemente vinculada à realidade que a cerca e da qual faz parte.

Tendo tido a oportunidade de vivenciar imúmeros monentos de transformação e evolução na arte brasileira deste século, Hilda Campofiorito permaneceu fiel ao seu único e maior compromisso, o de exercer com total desembaraço e sinceridade a sua pintura. E graças à sua tenacidade e paixão pelo trabalho, pode-se verificar e apreciar, nesta mostra, a efetiva contribuição que vem emprestando ao panorama artístico brasileiro contemporâneo.

Maria Elizabete Santos Peixoto

Publicado no catálogo da exposição realizada em Acervo Galeria de Arte, Rio de Janeiro, dezembro de 1985.