HISTÓRIA DA ARTE & LITERATURA  •  Maria Elizabete Santos Peixoto

Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976)

Pintura de DiCavalcanti A Primeira Guerra Mundial espalhava, havia dois anos, o pânico e a angústia generalizados, relevando, através de sua trágica realidade, a consciência e a dimensão da violência humana. Os Estados Unidos da América, jovem potência emergente, rompe suas próprias resistências e decide envolver-se no conflito. Na Europa, palco tradicionalmente histórico da civilização ocidental, tomam vulto os distúrbios populares e as inquietações sociais que produziriam, em outubro do ano seguinte, no extremo leste do continente, a Revolução Soviética. Na neutra e isolada Zurique, a pouca distância de tamanha crise, dava-se a primeira manifestação artística do Grupo Dada.

Na longínqua e perplexa América do Sul, o Brasil toma partido na guerra ao mesmo tempo que acelera o início do seu processo de industrialização, beneficiado pela devastação que arruinava a economia européia. Em São Paulo, embrião de metrópole que se lançava à aventura de projetar-se como importante centro nacional, aguarda-se o retorno de Anita Malfatti, jovem pintora que, em Nova Iorque, preparava a exposição que realizaria no ano seguinte já no Brasil: famosa mostra, que suscitaria antagonismos violentos, tornando-se um dos marcos fundamentais para o impulso do movimento modernista no país, antes do início da década de 1920.

No Rio de Janeiro, Eliseu Visconti termina os trabalhos de pintura decorativa para o foyer do Teatro Municipal, enquanto Henrique Bernardelli é premiado com medalha de honra, símbolo de consagração acadêmica definitiva, na Exposição Geral de Belas Artes. Neste mesmo ano de 1916, encontrando-se em brutal choque as grandes potências mundiais e assistindo-se ao cada vez maior e mais complexo distanciamento entre a evolução artística e cultural brasileira em relação à européia, o jovem Emiliano Di Cavalcanti expõe pela primeira vez suas caricaturas, no Salão dos Humoristas organizado por Luiz Peixoto e Olegário Mariano, merecendo ter seu trabalho destacado em artigo assinado por Gilberto Amado.

Sobrinho de José do Patrocínio, cuja mulher era irmã de sua mãe, Di Cavalcanti nasceu no dia 5 de setembro de 1897, na residência da família do grande abolicionista, à rua do Riachuelo, no Rio de Janeiro. Seu pai era tenente do exército e sua mãe, Rosália, tão espirituosa e romântica quanto perdulária ao excesso. Aos três anos de idade, Di acompanha a família na mudança para o bairro carioca de São Cristóvão, onde passou a infância e a maior parte da adolescência. Aluno do Colégio Militar, cresceu no antigo bairro imperial, em contato com as aventuras naturais e populares de um típico menino de classe média da época: o futebol, as brigas de rua, a grande novidade do cinema, o carnaval e as mulheres. Aos dezenove anos de idade, matricula-se na Escola Livre de Direito (a qual viria a abandonar antes do término do curso) ao mesmo tempo em que expõe pela primeira vez seus trabalhos de caricatura. A partir de então, começa a se definir o estreito envolvimento de Di Cavalcanti com a literatura e com a arte, fracassando qualquer tipo de expectativa relacionada a uma promissora carreira militar. Deste período inicial, são raros os trabalhos hoje conhecidos; contudo, há quem afirme já revelarem a vocação e a sensibilidade do futuro artista.

Perseguido pelas normas medíocres do conservadorismo burguês e pela incompreensão de alguns familiares, Di parte para São Paulo em busca da independência financeira e existencial. Realiza então, em 1917, sua primeira exposição individual, apresentando desenhos e pinturas a pastel, a maioria destas representando figuras femininas. Mário de Andrade, impressionado com a mostra, chama-o "menestrel dos tons velados". Prossegue em sua carreira e publica, em 1921, o álbum Fantoches da Meia-Noite, cujos desenhos exibem forte influência do artista inglês Aubrey Beardsley.

Sua produção de pintura, especificamente, desenvolve-se a partir do ano de 1920. Autodidata, Di Cavalcanti jamais freqüentou cursos regulares de arte. Da Escola Nacional de Belas Artes e de seus mestres, dizia que "...olhava tudo e não gostava". Estava profundamente envolvido com suas descobertas particulares, com o livre exercício de sua sensibilidade, e este propósito é perfeitamente identificável nas pinturas desta época: embora desenvolvidas a princípio na direção de uma tendência de caráter impressionista, revelam com clareza o desejo do artista em cumprir um caminho de renovação, de desafio e independência. Um caminho dialético, de ruptura e contraponto entre os valores já estabelecidos e às vezes ultrapassados e os que surgem como novos, audaciosos e revolucionários.

É neste contexto que Di Cavalcanti, já relativamente conhecido por seu trabalho, homem erudito e sempre em companhia dos intelectuais e artistas exponenciais de então, foi um dos idealizadores do movimento que teve lugar no Teatro Municipal de São Paulo: a Semana de Arte Moderna de 1922. Do cenário paulista das tradicionais famílias de raiz aristocrática e comportamento burguês, ricas e provincianas, surge uma geração que, trazendo da Europa as últimas idéias de Paris, tem necessidade de exibi-Ias de maneira festiva e provocante. Das inúmeras controvérsias a respeito do acontecimento, um ponto é pacífico: a sugestão inicial partiu deste irreverente carioca, Di Cavalcanti. Em suas próprias palavras: "Eu sugeri a Paulo Prado a nossa semana, que seria uma semana de escândalos literários e artísticos". E reavaliando o evento, anos mais tarde: "...só quando surgiu com os romancistas do Nordeste uma certa consciência da tragédia do homem brasileiro é que o anti-academismo criou uma estrutura poderosa".

No ano seguinte, o artista viaja pela primeira vez à Europa, regressando ao Rio de Janeiro em 1925. Nesta primeira estada européia, mantém estreito contato com diversos intelectuais e artistas notáveis, como Jean Cocteau, Blaise Cendrars, Miguel de Unamuno e os pintores Braque, Matisse e Picasso. Da arte deste último sofreu intensa influência, cujas características, conforme afirmou Sérgio Milliet, "...foi o primeiro a transpor através de uma originalidade indiscutível para o assunto brasileiro". De 1935 a 1940, Di Cavalcanti reside em Paris, na companhia de sua mulher Noêmia Mourão, também pintora. De volta ao Rio de Janeiro com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, tornou-se um dos mais notáveis pintores brasileiros da geração moderna e dentre eles um dos mais autenticamente nacionais.

Homem dos pincéis e das penas, das telas e dos poemas, Di Cavalcanti fez do Brasil, e em especial do Rio de Janeiro, verdadeira obsessão de amor, o seu tema predileto. A sua verdade pode ser sintetizada nas contingências do que passou diante de seus olhos e que a sua sensibilidade artística transformou, explodindo em criação, nas descobertas profundamente íntimas que suas obras transmitem até hoje ao público que as vê, admira e analisa.

Foi na paisagem carioca, nas figuras das mulatas e dos pretos, nas imagens do samba, do carnaval, dos coqueiros, das flores e das frutas, dos peixes e dos pescadores, que Di Cavalcanti investiu seu destino de artista, denunciando, de maneira instintivamente rebelde e sensual, a alegria ou o sofrimento, o drama cotidiano, enfim, do povo carioca e da realidade brasileira.

Nas paisagens, destacam-se antes de tudo as características do tropical e do popular: praias e a vida da cidade litorânea, as favelas, os morros e as casas típicas dos subúrbios, neste caso reminiscências da infância em São Cristóvão, como é possível observar nas pinturas Paisagem urbana no Rio de Janeiro (1950), Paisagem urbana no Rio de Janeiro (1955), Paisagem urbana com figuras (1957) e Trecho de paisagem em Paquetá (1967), desta coleção. São composições singulares, que revelam o interesse pelos motivos simples e pelas coisas humildes, expressas num ritmo romântico e colorido, numa visão alegre e divertida de quem retrata aquilo que ama e acredita com autenticidade e otimismo.

As mulatas, tema predominante, foram objeto de grande paixão do artista. A plasticidade e a sensualidade inerentes à anatomia, o olhar triste, as curvas angulosas, o ar misterioso e os movimentos lentos e preguiçosos encantaram-no e deram origem a centenas de telas nas quais o pintor explora movimentos e posições sob todos os ângulos, realçando as formas abundantes e os contornos até os limites do fantástico e do onírico. Ora são damas, ora prostitutas, umas meninas, outras maduras, nuas ou vestidas, às vezes sozinhas, entre outras mulheres, com flores, com homens, com gatos, mas sobretudo mulheres, mulatas e, mais do que tudo, irresistivelmente nobres, incomparáveis. "A mulata entrou na minha temática como procura da síntese do sensualismo brasileiro, em sua natureza total". E sob a ótica contida nestas palavras do artista, podem ser consideradas, no conjunto que integra esta coleção, Mulheres na rua (1940), Mulheres (1940), Casal (1960), Rosto de mulher (1963) e Três mulheres (1965).

O universo de Di Cavalcanti singulariza-se na cor, na festa, no povo e nos elementos da natureza. Com bastante regularidade, representou em sua pintura as flores e os alimentos, as coisas simples e essenciais, com o mesmo lirismo e a mesmo o próprio sentido da sua existência. Exemplos de singela e sensível beleza são as telas Vasos com flores (1938) e Natureza morta com frutas e jarra (1936), também reproduzidas neste livro, às quais o pintor impôs um equilíbrio paradoxalmente enérgico e suave.

Artista independente no que se refere a qualquer compromisso formal com uma ou outra tendência estética, Di Cavalcanti, contudo, assimilou algumas influências de artistas contemporâneos seus e até de alguns que o precederam. Isso ocorreu quando se impressionou com as particularidades mais marcantes de suas respectivas obras: "Não reconheço fases distintas em meu trabalho. Se existe uma certa evolução, ela representa um aumento gradativo do meu conhecimento humano". E foi justamente a partir da convivência ou do contato com outros artistas, que ele pôde desenvolver em sua obra, com extrema coerência, algumas experiências, transitórias ou permanentes, relativas aos aspectos que mais o atraíram nas principais tendências artísticas deste século.

A aproximação evidente com a tradição do expressionismo é traço permanente ao longo de sua produção, talvez surgida como decorrência da época durante a qual o artista dedicou-se à caricatura. O mesmo impulso que o levou a satirizar e combater através da caricatura, cristalizou-se depois numa espécie de expressionismo espontâneo, de inconformismo e rebeldia. Da mesma maneira que esta tendência particular de Di Cavalcanti em resistir, combater e demolir, manifesta sua inadaptação à rotina, a tudo aquilo que já foi consagrado, a presença de elementos pertinentes ao fauvisme poderia representar a violência contra a passividade conservadora, correspondendo a uma verdadeira e anárquica orgia, arbitrária e provocadora, na utilização das cores. No entanto, seu expressionismo é doce e sensual: o homem sensível e consciente olha e analisa a realidade de seu tempo, registrando-a, atento sobretudo aos humilhados e marginalizados. E o faz com amor, com generosidade e — quem sabe? — até com laivos de otimismo e esperança, em vez de praticar uma abordagem agressiva ou deprimente.

Assim, juntamente com a descoberta e a intimidade que manteve com a obra genial de Picasso, Di Cavalcanti, preservadas autonomias e épocas diversas, muito evocou em sua pintura do romantismo de Delacroix, seja no exotismo de certos ambientes ou em certas expressões das suas figuras. Em muitas de suas pinturas é possível identificar referências ao cubismo (e para isso terá contribuído a convivência com Braque e a admiração por seu trabalho), tais como processos de fragmentação das grandes massas e um certo rigor na construção. Da mesma maneira, a obra dos grandes muralistas mexicanos muito impressionou Di Cavalcanti no final da década de 1930, estimulando composições mais complexas, com volumes acentuados e colorido sombrio, conforme afirmou, "...eles marcaram em substância a minha pintura. A influência mexicana veio no momento justo e arrancou-me ao esteticismo inócuo".

No Brasil, se o movimento modernista consolidou-se na figura de Cândido Portinari, é também verdade que tem sua origem indissoluvelmente ligada à figura de um precursor em especial, este ilustre cidadão brasileiro e carioca que foi Emiliano Di Cavalcanti. Dois grandes pintores que com mérito e justiça repartem posição singular na história da arte moderna em nosso país: cada qual em sua vertente específica, mas ambos fundamentalmente brasileiros na temática popular que trataram como alegria ou como tragédia.

Maria Elizabete Santos Peixoto

Publicado no livro Seis Décadas de Arte Moderna na Coleção Roberto Marinho, Edições Pinakotheke, Rio de Janeiro, 1985 (Buenos Aires, 1987; Lisboa, 1989, p. 33-36).