Sandro Donatello Teixeira

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Retornar Pense com os olhos

Pintura Para mim a arte como ela foi concebida até o século XIX morreu. E isso aconteceu há muito tempo, pelo menos no que se refere às artes visuais na forma como sempre foram cultivadas. O óbito foi constatado no primeiro pós-guerra, por Marcel Duchamp. Depois, Walter Benjamin em 1936, já às vésperas da Segunda Grande Guerra, concluiu que a arte perdera sua aura. Concordo, mas decerto não perdeu a clientela. Hoje convivemos com ignorâncias sensíveis, produtoras de coisas curiosas. No passado essa gente decorava seda e porcelana, aprendia pintura ou modelagem e tinha aulas de piano ou violão. Sensibilidades adestradas que jamais pretenderam ultrapassar o diletantismo. Hoje, expõem seus trabalhos em galerias e até em museus. Sem o menor pudor, passaram a aplicar tinta e quaisquer outros materiais sobre o clássico tecido das telas, em geral agradando praticantes de convencionais profissões liberais, agora travestidos em críticos de arte. Como disse Duchamp, não entendem de arte, mas sabem explorar ignorantes sensíveis. E o fazem aclamando tudo aquilo que é apenas surpreendente, para estimular jovens executivos a se tornarem maravilhados colecionadores acidentais, no rigor da moda.

Sandro Donatello Teixeira está entre os poucos pintores de hoje que possui a emoção que atormentava os artistas do passado, quando as artes ainda viviam. Muito irreverente, ele insiste em lançar em suas telas sentimentos e lembranças, ou transformá-las em expressões de protesto tão sutis quanto agressivas. Nisso coincide com os modernistas do século passado, definitivamente sem os repetir. O conjunto de suas pinturas assemelha-se a um repertório iconográfico que desponta de lembranças vivas, de uma memória enlouquecida em busca de recordações que perderam contexto e nitidez. Nele despontam referências deixadas por um tempo fictício, como motivação essencial. As imagens são sempre importantes neste tipo de poesia construída de lembranças, e quem assistiu O ano passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais, sabe do que estou falando.

O que presenciamos nesta exposição é uma trajetória análoga, motivada pelo filme A casa de Sandro (2009), de Gustavo Beck, que desenvolve uma bela sequência visual, no cenário bucólico que foi casa do pintor em uma determinada época. Assim ele se deixou levar por momentos que ficaram no passado. Não se trata de uma alegoria, muito menos de um relato literário. São cores, algumas muito vibrantes, ou traços enérgicos e nervosos que buscam nos subterrâneos da memória os sentimentos petrificados que o filme registra. Mas tudo está irremediavelmente perdido, como realidade, para o autor em busca de um tempo ancestral.

O artista pertence a uma família de pintores formada por seu pai, Oswaldo Teixeira, que eu considero expoente do conservadorismo estético mas reconheço como profundo conhecedor das artes visuais. Sobre um desenho preciso e elegante, pintava com absoluto domínio da técnica. Por isso, para quem aprendeu a pintar com a naturalidade que se bebe um copo d’água, na obra de Sandro Donatello a técnica sempre esteve sob controle. Ele sabe o que faz e o que quer fazer. Trabalha com tintas acrílicas, mas consegue o mesmo resultado obtido pelos que usam ou usavam tintas a óleo. As obras expostas não são de fácil entendimento. Elas exigem olhar de quem conhece pintura. Não ha concessões. Cada tela exige a atenção do olhar e sensível percepção para as cores, inclusive porque o autor gosta de ironizar e desafiar retóricas acadêmicas, do passado e do presente.

Em seus trabalhos as cores puras fazem vibrar as superfícies. As misturas até podem parecer exageros de ambição cromática, mas nunca são ocasionais ou descuidadas. Elas estão ali, combinadas e aplicadas com maior ou menor vigor, por algum motivo. Pense com os olhos: as pinturas expostas nos convidam a refletir. Por vezes a cor sai do tubo diretamente para a tela, enquanto pinceladas discretas parecem insinuar formas, desenhar perfis, folhas de exuberante vegetação e flores. Não se trata de paisagismo, muito menos de escolher soluções fáceis e banais, pois nelas não existe lugar comum ou vulgaridades. Sandro Donatello Teixeira apresenta, em amplos formatos, sua busca intensa para reinventar a experiência do convívio e da contemplação de bucólicos cenários que — no plano da realidade — ficaram registrados no suporte digital de uma câmera cinematográfica.

Elmer Corrêa Barbosa
Rio de Janeiro, abril de 2013

Texto de apresentação originalmente publicado no catálogo da exposição JARDIM SELVAGEM DA CASA DE SANDRO e alguns personagens, Galeria Manuel Bandeira da Academia Brasileira de Letras, RJ, abril de 2013