Sandro Donatello Teixeira

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Retornar Imagens e reflexos

O fumanteSandro Donatello é um pintor que teve o privilégio de construir sua formação artística e cultural a partir dos agitados anos de fins da década de 1960. Das revoltas estudantis e populares de Paris às atitudes de contestação do poder absoluto da ditadura militar no Brasil, viveu e participou de experiências insubstituíveis na existência dos homens e dos artistas. Até meados dos anos 1970 freqüentou a maioria dos salões de arte que em todo país proporcionavam um clima paradoxal de liberdade, tão diferentes daqueles que hoje e em anos recentes vemos como paradigma do isolacionismo e dos mais odiosos privilégios.

Sua pintura foi desde o início um registro do embate violento entre a percepção do artista e as artimanhas simbólicas que a sociedade impõe a todos nós. E sua solução — criada com agressividade espontânea aplicada a todas as formas, técnicas e materiais disponíveis — foi sempre, antes como agora, uma espécie de comovido gesto de solidariedade aos seres cuja individualidade os aprisiona em dilemas de solidão e angústia. Daí o fascínio pela permanente ambigüidade da figura humana, que em seus trabalhos é rudemente vista como tal, sem muita distinção entre sexo, raça, poder ou posses.

Em antigas pinturas, as silhuetas de combatentes de rua e policiais se confundiam como em um teatro de sombras, num torvelinho de ação que igualava reprimidos e repressores, agredidos e agressores: e hoje, ainda com maior requinte mas com a crua verdade de sempre, somos confrontados com o olhar direto e ameaçador de O fumante, cujo insondável espaço de significação aos poucos parece insinuar que a figura contempla a si própria, como se recusasse sua identidade e pretendesse ser apenas nosso reflexo em um espelho. Essas armadilhas típicas das imagens, que Sandro Donatello persegue com tenacidade e compreende como poucos outros artistas de sua geração, são o fundamento essencial do vigoroso retrato do crítico Jayme Maurício, há poucas semanas falecido. Nele, o pintor procurou e conseguiu extrair algo como a memória simbólica de uma imagem, não a semelhança ou a diferença fisionômica, mas uma sugestão de reconhecimento que para mim evoca o grande Balzac, e cuja hipótese certamente satisfaria a personalidade complexa e torturada do retratado caso ele tivesse podido vê-lo.

Esta não é uma exposição que se possa ver e esquecer. Sua densidade emocional conduz o espectador a compromissos de reflexão, repele e atrai ao mesmo tempo a atenção e assim provoca, sem cessar, um conflito de vontade que é metáfora familiar à condição humana diante de si própria e de seus enigmas. De algum modo também somos esses personagens, cuja aparência a princípio nos hostiliza mas em relação aos quais podemos pressentir uma indefinível e inegável associação, como um remoto elo de simpatia e afinidade que vai crescendo não obstante preferíssemos ignorá-lo. E ao aceitá-lo como possibilidade, através dessas pinturas, quem o fizer estará vivendo uma experiência única que só a arte poder proporcionar.

Carlos Roberto Maciel Levy
Rio de Janeiro, julho de 1997

Texto de apresentação originalmente publicado em exposição realizada em Florianópolis, SC, em 1997.