Sandro Donatello Teixeira

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Retornar Arte e violência

PinturaA trajetória artística de Sandro Donatello é a de um pintor erudito que inventaria constantemente suas raízes, sem falsos pudores, assumindo suas influências e suas heranças.

Paradoxalmente essa fidelidade ao seu background confere-lhe um caráter fortemente individuado enquanto criador. E isso porque o que está em causa não é sua autonomia e muito menos a sua inventiva pessoal. Somente alguém que se sentisse tranqüilamente dono de seu próprio território artístico ousaria essas criativas e críticas releituras, que vão de Picasso a Bacon e que começam a ser importantes já a partir do bom-gosto das escolhas.

O que o fascina são os temas do quotidiano. E aqui mais uma vez o paradoxal é uma componente de seu trabalho, na medida em que, lançando mão de realidades que sob um tratamento menos rigoroso ou criativo resultariam prosaicas, obtém climas do mais denso envolvimento.

Uma visão apressada poderia infletir no sentido de dar essa pintura cheia de significados, que vão desaguar na grande pintura européia contemporânea, como um desambicioso comentário de artista do Terceiro-Mundo deslumbrado ante o portentoso e o passado em julgado da arte internacional.

Corrigida porém essa inflexão e retificada para um rumo mais rigorosamente crítico, o que temos é uma intertextualidade, ou seja uma criação pessoal que se apropria, da maneira mais legítima, de todo um cabedal que a contemplação, o estudo, as viagens e o amor da discussão estética terão fornecido ao artista.

Mediada por um lote de referências européias e norte-americanas — ou, dizendo outramente, por todo um repertório pictórico da mais alta exigência — a pintura de Sandro Donatello resta visceralmente brasileira, já a partir de sua temática. Suas retomadas de motivos (e por vezes até de tratamentos) passam por um crivo fortemente personalista que incorpora plenamente o seu aqui e agora. Nada nesses procedimentos é gratuito e tanto mais demorada e inquiridora for a indagação do contemplador, maior soma de elementos questionadores e/ou transcedentais haverá a anotar nesse trabalho tão criativamente especulativo.

Não menos gratificante (e aqui não estamos falando da gratificação do olhar tão-somente, mas da cosa mentale de Leonardo) é aquela outra face do seu trabalho em que Sandro Donatello parte de suas próprias nascentes primárias, exercitando-se em ousadias, sobretudo composicionais, que violentam os cânones e freqüentemente desnorteiam o olhar bem-pensante, habituado a cobrar da tela o estabelecido e o sancionado. Esse pintar à beira do desastre, uma de suas marcas mais tipificadoras, é certamente uma ousadia a que somente se poderia permitir quem, como ele, conhecesse a fundo as leis da composição e do cromatismo para violentá-las com maestria e subvertê-las com virtuosismo.

E justamente esse fazer completa, com a outra parte de sua obra, um círculo perfeito de erudição e amplo domínio do métier que explica suas intervenções e recriações, bem como suas ousadias e rupturas. Duas faces que se completam, ambas sob a marca do conhecimento aprofundado servindo a um forte talento.

Rui Sampaio
Rio de Janeiro, junho de 1983

Texto de apresentação originalmente publicado no catálogo da exposição ARTE E VIOLÊNCIA: quatro artistas, Galeria da Universidade Federal Fluminense, Niterói, junho-julho de 1983