Sandro Donatello Teixeira

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Retornar Um pintor do nosso tempo

Pintura Depois de algumas participações em mostras coletivas e salões oficiais, Sandro Donatello Teixeira apresenta agora a sua primeira individual no Rio, com desenhos e pinturas. A exposição realiza-se após alguma relutância (ou seria melhor dizer indecisão?) por parte do artista, que sempre acreditou haver obstáculos à amostragem de sua pintura em galerias comerciais, tanto pela violência dos temas como pela grande dimensão dos quadros.

De fato, sua pintura é de exacerbada violência e quase sempre feita em medidas que ultrapassam de muito as modestas dimensões que se impõem geralmente os compradores para poder pendurá-las em suas exíguas paredes. Mas, mesmo assim, não vejo porque os marchands não tiveram seu interesse despertado pelo trabalho de Sandro Donatello. Trata-se, sem dúvida, de excelente pintura, generosa e forte, sem o alambicado e a pretensão dos truques a que se entregam alguns pintores da idade de Sandro atualmente. Talvez por isso mesmo é que este artista não conseguiu interessar até agora aos mercadores de arte; sua produção é pequena, ele não poderia atender a uma demanda comercial intensa sem cair nos vícios dos que se submetem ao circuito. Com isso, quem saiu ganhando foi a galeria do Instituto Brasil-Estados Unidos, que pôde mostrar ao seu público, no momento certo, um pintor que tem a garra e o poder das invenções capazes de colocá-lo em destaque dentro do panorama onde atuam os de sua geração.

Há aí, porém, algumas contradições que precisam de um exame mais minucioso. A principal delas é o artista almejar sua inserção num contexto dentro do qual a agressividade de seus temas não se enquadraria; a segunda consiste no fato de ao aceitar as injunções de um mercado ávido pelo "bom gosto", Sandro na certa teria de maneirar a "mensagem", pois nenhum criador ocupa impunemente as paredes imaculadas dos bons burgueses. Esse, aliás, tem sido o dilema de todos os artistas sérios desde que a arte passou a ser um artigo de consumo.

Dessas reflexões fica a pergunta: até onde vão os poderes de absorção do mercado e onde começa o desejo subconsciente do artista de entrar nele? O mapa desse relacionamento tem fronteiras indefinidas e é a ambigüidade o elemento que rege o conflito. Alguém poderia dizer, por exemplo, que a extraordinária exibição de técnica e os feixes de cores luminosas e líquidas de Sandro Donatello seriam o seu passaporte para o consumo.

Nada disso deve importar por enquanto, isto é, enquanto tivermos a possibilidade de ver, mais assiduamente talvez, a pintura como Sandro a faz e encara no momento: dilacerada e humana, falando do homem como vítima de um processo de desagregação mas que, apesar de dividido, protesta, tenta gritar, reage às terríveis imposições de um deus ex machina. Colocando-se no centro de um turbilhão para onde parecem convergir todos os caminhos do mundo, o artista maneja seus instrumentos não como o ser angélico e intocado, que assiste ao espetáculo, mas que faz parte dele, que toma partido e que, ao materializar o quadro, afirma também estar dentro do processo, que também ele vai ser esmigalhado, e por isso protesta. Com isso o artista assume a posição histórica que sempre lhe coube e dá a dimensão humana da arte. Não é essa afinal a sua missão?

Falar portanto, aqui, dos pequenos empecilhos que talvez ainda existam para que se aplauda sem reservas a exposição de Sandro Donatello Teixeira, seria uma deformação profissional de crítico. Com essa mostra de suas pinturas o artista nos confirma o que já sabíamos: ele é um dos poucos e corajosos valores da jovem pintura nacional. Parece-me contudo — e aqui vai a paulada que o crítico não pode deixar de dar — que ele não tem muita consciência disso, pois para uma sala tão ampla como a do IBEU devia ter apresentado mais pinturas e menos desenhos, a meu ver simples anotações para quadros futuros.

Francisco Bittencourt

Texto originalmente publicado no jornal Tribuna da Imprensa, RJ, em 1978