Carlos Roberto Maciel Levy

Crítico e Historiador de arte

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Fotografia reproduzida de: Laudelino de Oliveira Freire. Um século de pintura, Tipografia Röhe, 1916

Comemorações

Domingo García y Vazquez 1859-1912
CENTENÁRIO DE MORTE EM 2012

Nasceu em Vigo, província da Galícia, Espanha, em 1859. Filho de Generoso García y Vazquez, chegou ao Brasil por volta do mês de abril de 1876, tendo sido admitido na Academia Imperial das Belas Artes em 27 de fevereiro de 1879. Já em 1882 participou de concurso da aula de paisagem, expondo no ano seguinte na Casa De Wilde. Na Exposição Geral de Belas Artes em 1884 recebeu segunda medalha de ouro, e em julho deste mesmo ano abandonou a Academia e transferiu-se para Niterói (rua da Boa Viagem 7-A).

Em abril de 1885 viajou para a França, frequentando o ateliê de Hector-Charles Hanoteau (1823-1890) e, sem qualquer comprovação documental, mantido algum tipo de contato com Henri-Joseph Harpignies (1819-1916). Retornou ao Brasil no início de 1888, residindo ainda em Niterói (rua Santa Bibiana 3-B), no Canto do Rio. No ano seguinte expôs no Ateliê Moderno, no Rio de Janeiro, pinturas que apresentavam influência dos ensinamentos adquiridos no exterior. Na época em que o artista freqüentava a Academia, principalmente no período de sua convivência com o professor Johann Georg Grimm (1846-1887), já era considerado como o melhor paisagista de sua geração, na opinião do próprio mestre, de Antônio Parreiras (1860-1937), e de Thomas Driendl (1849-1916). Os estudos na França, porém, significaram de certa maneira um retrocesso para a obra de Vazquez, em especial como decorrência da influência de Hanoteau.

Em suas apresentações posteriores ao regresso da Europa a imprensa foi um tanto fria e distante, uma atitude muito diferente daquela que lhe fora proporcionada mesmo no período durante o qual era apenas aluno da Academia. A personalidade de Vazquez, já propensa à introversão e à insegurança pessoal, sofreu um forte abalo que logo se refletiria em suas atividades artísticas. Durante a última década do século XIX ele se manteve absolutamente afastado da capital, isolado em sua modesta residência de Icaraí e dedicando-se à pesca como meio de sobrevivência. Nessa época suas pinturas foram executadas em pequeno formato e quase sempre sobre madeira, tendendo a um modelo de simplificação máxima das formas em uma tentativa de superar os convencionalismos adquiridos com o medíocre mestre francês. Lembram, no mais das vezes, a produção mais ligeira de Giovanni Battista Castagneto (1851-1900) em termos de analogia com um processo de captação imediata das impressões atmosféricas da paisagem, sendo que em Vazquez o colorido sem dúvida possuiu significado de maior expressão.

Em 1901 participou da Exposição Geral da Escola Nacional de Belas Artes, demonstrando então o princípio do retorno às características de sua produção original. Quatro anos depois excursionou pela serra da Estrela, principalmente em torno de Teresópolis, preparando as telas com as quais iria, na Exposição Geral de 1906, retomar o rumo de uma pintura de excepcional qualidade como evolução dos ensinamentos de Grimm recebidos cerca de vinte anos antes. Sobre as pinturas expostas neste ano, disse o crítico de arte Luiz Gonzaga Duque Estrada:

"Particularmente Vazquez nos atrai. As suas quatro paisagens Planalto de Teresópolis, Rio Paquequer, Serra dos Órgãos e Afluente do Paquequer, são magníficas. Esse pintor, que por tão longo tempo persistiu na obscuridade de uma voluntária existência humilde, é das melhores organizações artísticas que contamos entre contemporâneos. A sua visão apreende sinteticamente, o seu colorido é quente e ao mesmo tempo sóbrio, a sua maneira original. Não reproduz unicamente, interpreta, entra na expressão da natureza, funde-a com a sua alma".

Esta seria, porém, a derradeira manifestação pública do artista que havia sido o mais considerado e promissor dentre os discípulos que fizeram parte do Grupo Grimm. Novamente Vazquez foi acometido por profunda depressão que o compeliu a uma conduta instável e esquizofrênica. Tal situação, agravada pela solidão obsessiva que se impusera, levou-o ao suicídio cometido a 18 de janeiro de 1912, durante a sessão noturna em uma das dependências do Cinema Soberano (o atual Cinema Íris), à rua da Carioca 49, no Rio de Janeiro.

Carlos Roberto Maciel Levy
Extraído do livro O Grupo Grimm: paisagismo brasileiro no século XIX, Edições Pinakotheke, Rio de Janeiro, 1980, p.40-41 [texto revisado].



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