Carlos Roberto Maciel Levy

Crítico e Historiador de arte

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Detalhe de fotografia publicada no livro de José Roberto Teixeira Leite, p.26

Comemorações

José Pancetti 1902-1958
CENTENÁRIO DE NASCIMENTO EM 2002

Nascido em Campinas e falecido no Rio de Janeiro. Filho de imigrantes italianos chegados ao Brasil em 1891, teve infância paupérrima, e em 1913 seguiu para a Itália, radicando-se em Massa Carrara, onde viviam uns tios. Logo depois vai morar com os avós em Pietra Santa. Mais tarde será aprendiz de carpinteiro, operário na fábrica de bicicleta Bianchi e empregado numa fábrica de materiais bélicos em Forte dei Marmi.

Aos 17 anos embarca num veleiro, o Maria-Rosa, rumo a Nápoles. Em 12 de fevereiro de 1920, de regresso ao Brasil, desembarca em Santos, onde, para sobreviver, irá desempenhar humildes ofícios: empregado numa fábrica de tecidos, auxiliar de ourives, garçon, trabalhador em esgotos e arrumador do Hotel Guarujá. Em 1921, de novo sem trabalho, depara-se na Rua Aurora, em São Paulo, com a Oficina Beppe, na qual se emprega como pintor de paredes e cartazista improvisado. Logo depois torna-se auxiliar do pintor Adolfo Fonzari nas decorações da casa do comendador Pugiese em Guarujá.

Em março de 1922 alista-se na Marinha de Guerra do Brasil e passa a servir no destróier Paraná. Como marinheiro, a partir de então, viajará o mundo, e tomará parte nas revoluções de 1922, 1924, 1930, 1932 e 1935, sempre ao lado das forças legalistas.

A bordo executava serviços de pintura: como pintor da Companhia de Praticantes Especialistas de Convés chegou a ter seu nome vinculado a uma tonalidade especial de verde — o verde pancetti —, na qual pintava cascos e paredes de navios.

(...) A partir de então, as horas vagas seriam utilizadas na elaboração de pequenas pinturas, executadas em caixas de fósforos ou em pequenos cartões, trocadas por cigarros ou simplesmente dadas a colegas. Em 1932, assistindo de bordo do cruzador Bahia ao combate entre o Rio Grande do Sul e o avião de Ribeiro de Barros, defronte ao Farol da Moela, em Santos, fixa a cena num desenho que, publicado em A Noite, obteve certa repercussão. Paulo Mazzuchelli e Giuseppe Gargaglione aconselham-no pouco depois a ingressar no Núcleo Bernardelli, o que faz efetivamente, passando a receber orientação de Manoel Santiago, Edson Motta, Rescala e outros.

(...) Os pintores que mais o marcaram, no Núcleo, foram porém Martinho de Haro — o primeiro, talvez, a lhe falar em arte moderna — e principalmente Bruno Lechowski, com quem começou a compreender a parte artesanal da pintura, e que lhe emprestava livros e lhe dava conselhos.

Em 1933 expôs pela primeira vez no Salão Nacional de Belas Artes; no ano seguinte recebe menção honrosa. Em 1935 casou-se com Anita Caruso. Nos três quadros com que concorre ao Salão de 1936, e que lhe garantem a medalha de bronze, há quem perceba afinidades estilísticas com o argentino Quinquella Martin, então em grande voga. Em 1939 é a vez da medalha de prata, e em 1941 o prêmio de viagem à Europa, pela Divisão Moderna recém-criada. Esta premiação, dada a um pintor de orientação não-acadêmica, provoca reações entre os conservadores, e um deles, J. L. de Villeroy-França, agride Pancetti em artigo publicado a 19 de outubro de 1941 na Gazeta Magazine, chamando-o de "...pintor sem símbolos e sem fatalidades, vitima do complexo terrível da praça de pré profissional que não pode atingir o oficialato, recalque de marinheiro que não pode ser almirante!"

Mas, tal como ocorrera com Vicente Leite, premiado no Salão anterior, Pancetti também não viajará, não tanto pela impossibilidade de seguir para a Europa em guerra — pretendia aliás viajar para os Estados Unidos —, mas pelo seu precário estado de saúde. Assim, o prêmio de viagem foi transformado em auxilio: 37 contos de réis, mais o que percebia como primeiro-sargento — um conto e 53 mil réis mensais. Reformado e sem maiores problemas financeiros, Pancetti poderá doravante dedicar-se por inteiro à pintura.

Em 1947, com o prêmio de viagem ao país obtido no Salão, parte para Salvador, a instâncias de Odorico Tavares. Em agosto de 1950 segue de novo para a Bahia, com a intenção de passar alguns meses. De Salvador porém não iria mais ausentar-se, a não ser em curtas temporadas em Campinas, Saquarema e Campos do Jordão, além de freqüentes visitas ao Rio. Em janeiro de 1952 é promovido a primeiro tenente. Em 1954 recebe a medalha de ouro do Salão Baiano — tal como, em 1948, recebera a do Salão Nacional. Em 1957 dão-lhe o titulo de Cidadão Baiano. No fim desse mesmo ano opera-se, no Hospital Central da Marinha, no Rio de Janeiro, de uma úlcera duodenal, recuperando-se em Campos do Jordão. A 10 de fevereiro de 1958, porém, após meses de padecimentos estoicamente suportados, registrados no pungente Diário do hospital, morre no Rio de Janeiro, deixando viúva e dois filhos, sendo sepultado no Cemitério de São João Batista.

Pancetti começou verdadeiramente a pintar uns dez anos após a Semana de Arte Moderna, no momento em que Portinari, recém-tornado da Europa, ia-se transformando no líder inconteste da chamada Escola Carioca de pintura. Não se aproximou porém quer de Portinari ou de Alberto da Veiga Guignard, também chegado havia pouco da Europa, nem de qualquer outro corifeu do Modernismo brasileiro - Di Cavalcanti, Ismael Nery, Cícero Dias, Correia de Araújo: ao contrário, ingressa no recém-fundado Núcleo Bernardelli, que funcionava nos porões da Escola Nacional de Belas Artes e representava a ala moderada do Modernismo no Rio de Janeiro. Formado em contacto com tal meio, Pancetti não seria jamais um experimentalista, conservando-se sempre um mimético, que partia da observação atenta dos seres e das coisas. Marinhista e paisagista por índole, por instinto, irá permanecer fiel, durante toda a sua carreira, a uma linhagem mais clássica, limitado pela referência à natureza, que não pretendeu reinventar, mas retratar. Nisso reside, de resto, um certo parentesco que tem com alguns pós-impressionistas europeus. Mesmo quando ia mais acesa, na década de 1950, a luta entre figurativistas e abstracionistas, José Pancetti permaneceu um isolado, simplificando ao máximo suas marinhas, fazendo uso de um desenho anguloso, mas ainda assim representando com fidelidade a natureza.

Por seu temperamento romântico, pode Pancetti ser aproximado de Guignard e de Djanira: há nos três a mesma ingenuidade, idêntica humildade ante a natureza, a mesma fé no instinto. Pancetti é porém mais melancólico, descambando por vezes para o patético. Como escreveu Rubem Navarra, "...os mundos e os seres do marinheiro vivem arfando sob esse peso de uma implacável e soturna contemplação. Uma tristeza terrível, como um entardecer numa prisão ou num hospício, apodera-se desse olhar quase alienado de tão romântico. Pintor das almas humildes e trágicas, a obra de Pancetti pode se fixar em estados culminantes como o famoso Homem Louco, onde o pintor evoca sem querer o patético dos grandes expressionistas". Para o grande crítico, o artista de quem Pancetti mais se avizinha em tais momentos é Segall, já que um e outro pintavam para extravasar o sentimento do mundo.

Cézanne e sobretudo Van Gogh chegaram a impressioná-lo em dado momento, influência que repercute em várias naturezas-mortas e nos auto-retratos. É que Pancetti, como o célebre pintor holandês, concebia a pintura como experiência vital, não fazendo diferença entre sua vivência humana e sua arte. Influência mais palpável exerceria contudo Lechowski, artista polonês que passou no Brasil os 15 anos finais de sua vida. Pancetti nunca deixou aliás de reconhecer quanto devia a Lechowski, e como discípulo de Lechowski é que se apresenta no Salão de 1937.

Fracamente influenciado (haveria talvez a fazer ainda uma referência à influência recíproca que em dado instante exerceram entre si Pancetti, Dacosta e Bustamente Sá, a ponto de pintarem a três mãos), buscando a duras penas o caminho da própria pintura, Pancetti não pode ser enquadrado a rigor numa dada tendência: é, na verdade, o grande solitário da pintura brasileira, romântico e expressionista, preso indelevelmente à alusão ao mundo exterior mas — ainda assim — evocando a natureza em esquemas tão puros, tão despojados, que quase tocam a abstração.

(...) Mesmo sem se subordinar a qualquer esquema rígido, Pancetti obedece às leis da perspectiva aérea e linear; essa, a partir da fase iniciada em 1945 em Itanhaém, é obtida com auxílio de uma linha em ziguezague que atravessa de um canto a outro o espaço pictórico. Tal linha ocorre amiúde nos quadros de Pancetti sob a aparência de fímbria de mar, curso de rio ou bordos de lagoa, estrada ou caminho, sendo inclusive uma de suas características mais constantes. No que tange à perspectiva, Pancettti nada tem por conseguinte de um inovador, antes sendo um continuador da tradição.

Pancetti não desenha o detalhe, contentando-se com esboçar, em traços incisivos, o essencial de cada forma. A anatomia de suas figuras é sumária: o artista busca a síntese, evitando minúcias. Sempre no que respeita ao desenho, nele predomina a linha angulosa, quebrada em arestas. Quanto à cor, Pancetti subordina-se à natural, igual, nisso também, aos pleinairistes desde o século XIX.

Pancetti modela as formas com auxílio dos contrastes entre luz e sombras, obtendo bons efeitos plásticos. Mas não raro as sombras se reduzem ao mínimo, com sacrifício da volumetria: para os fins da carreira, as formas de figuras humanas e de certas naturezas-mortas tornam-se achatadas.

Recurso também tradicional de que fez uso foi a ilusão da matéria, muito nítida em começos de sua carreira, e que para o fim vai-se atenuando. Quanto à composição, um dos esquemas mais empregados é aquele em que a superfície pictórica é dividida em duas partes desiguais por uma reta, aqui e ali quebrada em ângulos. Na pintura de figuras ocorre um expediente que evoca Van Gogh: a figura ocupa o plano principal, recortando-se contra um fundo dividido em campos cromáticos delimitados também por linhas retas. Há ainda que realçar alguns cortes, quase fotográficos, que ocorrem, com freqüência, em paisagens, marinhas e mesmo naturezas-mortas.

(...) Desprezando-se as primeiras tentativas amadorísticas da década de 1920, pode-se dizer que a carreira de Pancetti começa verdadeiramente em 1932. O conhecimento com Lechowski é decisivo, e daria seus frutos cerca de dois anos depois, em obras nas quais é já possível surpreender uma execução mais segura, se bem que ainda pesada e algo desgraciosa. À medida que a década se aproxima do fim, Pancetti experimenta grandes progressos. À influência de Lechowski sucedem-se, por breves períodos, as de Cézanne, nas naturezas-mortas, e Van Gogh, nos retratos e auto-retratos; influências livrescas, que cedo se dissipariam.

Será a partir de 1943, em Campos do Jordão, que Pancetti vai encontrar seu estilo próprio. A doença, a solidão e o encontro com a natureza produzem no artista um forte impacto, responsável pelo surgimento de uma série de paisagens caracterizadas pela nota de profunda melancolia (série negra ou abissínia). Depois de Campos do Jordão, Pancetti está apto a se entregar a vôos ainda mais altos: São João del Rey e Itanhaém (1945), Mangaratiba (1946), Cabo Frio (1947), Arraial do Cabo (1948), novamente Campos do Jordão (1949).

Em agosto de 1950 Pancetti radicou-se em Salvador e começou a pintar. A princípio, sua arte ressentiu-se com a mudança atmosférica e com o excesso de luminosidade. Foi um momento de transição, durante o qual a visão do artista buscou adaptar-se às novas condições, nem sempre com êxito. Mas a partir de 1952 Pancetti readquiria a plenitude de seus recursos e passava a retratar, com a mesma intensidade poética de antes, o litoral baiano de Mont-Serrat a Areia Branca, do Farol da Barra a Itapoã e do Rio Vermelho à Lagoa do Abaeté, a Mar Grande, a Amaralina. Com o breve intervalo de 1955 (fase de Saquarema), a fase baiana prosseguiria até o fim da vida, com altos e baixos. Na verdade, após Saquarema a mensagem de Pancetti parece esgotada: o artista repete, com maior ou menor felicidade, o que já antes dissera melhor. Itapoã, em 1957, é o termo final de sua carreira, e a despeito do cromatismo renovado, os quadros então produzidos ressentem-se de maior emoção. Mesmo assim seria injusto não destacar algumas obras da série Lavadeiras do Abaeté, com sua invenção formal, seus cortes originais, sua luminosidade (...).

José Roberto Teixeira Leite
Extraído do livro Dicionário crítico da pintura no Brasil, ArtLivre, Rio de Janeiro, 1988 (versão digital em CD-ROM, Log On Informática, Rio de Janeiro, 1999).



TEXTO
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BIBLIOGRAFIA

LEITE, José Roberto Teixeira. Pancetti o Pintor- Marinheiro, Rio de Janeiro, 1979

MEDEIROS LIMA. Pancetti, Rio de Janeiro, 1960

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