Carlos Roberto Maciel Levy

Crítico e Historiador de arte

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Retrato reproduzido de: Angelo Agostini. Revista Ilustrada nº 482, 28 de janeiro de 1888, p.2

Comemorações

Johann Georg Grimm 1846-1887
SESQUICENTENÁRIO DE NASCIMENTO EM 1996

Nascido em 1846, numa aldeia próxima da cidade de Immenstadt, nos Alpes da região do Allgäu, ao sul da Alemanha, Johann Georg Grimm era filho de um carpinteiro. Enquanto jovem, foi pastor de cabras, carpinteiro como o pai e também pintor de casas. Na década de 1860, transferiu-se para Munique, matriculando-se em 1868 na Antikenklasse da Academia de Belas Artes desta cidade. É possível que tenha sido aluno, nesta época, dos principais mestres de Munique, como Karl Theodor von Piloty (1826-1886) e Franz Adam (1815-1886), assim como tenha mantido contato com os discípulos mais notáveis de Piloty, tais como Franz von Defregger (1835-1921) e Franz Seraph von Lenbach (1836-1904).

Com a eclosão da guerra Franco-Prussiana, em 1870, o pintor engajou-se como combatente, datando deste período sua amizade com o pintor Thomas Georg Driendl. Ao fim da guerra, partiu da Alemanha em viagem pelos países do Mediterrâneo e Oriente Próximo. De Lisboa, provavelmente no ano de 1878, embarcou para o Rio de Janeiro, onde fixou residência à Rua do Senador Cassiano nº 39, em Santa Teresa. No Rio, Grimm manteve contato com o comerciante e decorador Friedrich Anton Steckel, estabelecido à Rua do Lavradio nº 16, com quem trabalhou pelo menos até o ano de 1882. Neste período, viajou pelo interior do estado do Rio de Janeiro, passando por Petrópolis e Valença, bem como pelo estado de Minas Gerais, pintando paisagens que reproduziam as fazendas de café e propriedades do campo dessas regiões.

Na Exposição da Sociedade Propagadora das Belas Artes, realizada no Imperial Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, em 1882, expôs cento e vinte e oito trabalhos, entre óleos e aquarelas, recebendo entusiasmados elogios da imprensa. Em maio deste mesmo ano, logo após o encerramento da exposição, Grimm foi contratado em caráter interino para o cargo de professor da cadeira de paisagem, flores e animais, da Academia Imperial das Belas Artes. Nesta época, já freqüentavam as aulas de paisagem Hipólito Caron (1862-1892), Domingo García y Vazquez (circa 1859- 1912), Giovanni Battista Castagneto (1851-1900), Joaquim José da França Júnior (1838-1890) e Francisco Joaquim Gomes Ribeiro (circa 1855-circa 1900), estes dois últimos como amadores. Todos viriam a ser discípulos do pintor alemão até 1885, inclusive e principalmente Antônio Parreiras (1860-1937), que ingressaria na Academia em 1883.

Grimm conquistou sucesso e admiração, sendo hoje considerado um dos principais marcos na história da arte brasileira, a partir da inovação do método de ensino que o notabilizou. Apaixonado pela natureza, o mestre estimulava seus alunos a compreenderem o paisagismo como pintura exclusivamente realizada ao ar livre, o que frontalmente contrariava o estilo de ensino clássico e formal que caracterizava o sistema predominante na Academia Imperial.

Produzindo grande quantidade de obras importantes, a partir de 1882 executou painéis em madeira para a nave da Igreja do Carmo, à Rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, representando a história mística da Ordem Terceira do Carmo; painéis para igrejas de São João del Rei; pinturas decorativas, juntamente com Driendl, para o Liceu Literário Português, no Rio de Janeiro, posteriormente destruído por um incêndio, além de viajar freqüentemente pelo interior dos estados do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais.

O ano de 1884 atesta o apogeu da estada do pintor alemão no Brasil, com a Exposição Geral de Belas Artes, da Academia Imperial, quando Grimm apresentou quatro trabalhos, sendo premiado com medalha de ouro, conferida à tela Vista do Cavalão. Em julho deste mesmo ano, o artista recusou-se a renovar o contrato de professor interino de paisagem da Academia, já que a instituição não se resolvia a abrir concurso para o cargo de professor efetivo da referida cadeira. Transferiu-se nesta época para Niterói, ocupando parte de um grande casarão situado à Rua da Boa Viagem nº 7-A, tendo como seu vizinho Thomas Georg Driendl. Neste local, estabeleceram-se também os alunos que, com Grimm, abandonaram a Academia, alguns ali residindo em caráter permanente durante este ano.

Partindo com alguns de seus alunos para Teresópolis, no verão de 1885, onde se demorou por pouco tempo, prosseguiu viagem para o interior do estado de Minas Gerais, onde pintou o pano-de-boca para a Casa da Opera de Sabará (atual Teatro Municipal), permanecendo algum tempo nas cidades mineiras de Nova Lima, Sete Lagoas e Lagoa Santa.

Retornou ao Rio de Janeiro no ano seguinte, realizando grande número de pinturas por encomenda nas regiões de Valença, Bemposta e São José do Rio Preto, onde documentou os diversos segmentos sociais e produtivos das comunidades rurais através de telas que reproduziam minuciosamente as fazendas de café da região. Nesta época, o pintor alemão já se encontrava bastante enfraquecido pela tuberculose que o mataria no ano seguinte. De volta ao Rio de Janeiro, em julho de 1887, revê o ex-aluno Antônio Parreiras, numa visita que faz ao jovem pintor em sua residência, partindo logo em seguida para a Europa, em busca talvez de melhor assistência para a cura de sua doença.

Com o agravamento da moléstia, foi internado em Palermo, onde faleceu no dia 24 de dezembro de 1887, aos quarenta e um anos de idade, sendo sepultado nesta cidade. A notícia de sua morte, porém, só chegou ao Rio de Janeiro um mês depois. É improvável que tenha deixado descendentes no Brasil ou na Alemanha.

Maria Elizabete Santos Peixoto
Extraído de Pintores Alemães no Brasil durante o Século XIX, Edições Pinakotheke, Rio de Janeiro, 1989.



TEXTO
Copyright © Maria Elizabete Santos Peixoto, 1989-2014

BIBLIOGRAFIA

LEVY, Carlos Roberto Maciel. O Grupo Grimm: Paisagismo Brasileiro no Século XIX, Edições Pinakotheke, Rio de Janeiro, 1980, 112 p.

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