Carlos Roberto Maciel Levy

Crítico e Historiador de arte

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Fotografia reproduzida de Laudelino de Oliveira Freire. Um século de pintura, Tipografia Röhe, 1916

Comemorações

Belmiro de Almeida 1858-1935
SESQUICENTENÁRIO DE NASCIMENTO EM 2008

Nascido em Serro (MG) e falecido em Paris, França. Após breve passagem pelo Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, matriculou-se em 1877 na Academia Imperial de Belas Artes, tendo sido aluno de Souza Lobo, Agostinho José da Mota e Zeferino da Costa. Começou a trabalhar na imprensa, como caricaturista, naquele mesmo ano de 1877, fazendo publicar, na Comédia Popular, sua primeira charge. Trabalharia mais tarde para O Binóculo, O Diabo da Meia Noite, O Diabo a Quatro, A Bruxa e outros órgãos, de duração mais ou menos efêmera, que se editavam no Rio de Janeiro.

Conservador da pinacoteca da Academia em 1883, foi contemplado com medalha de prata na Exposição Geral de 1884. Em 1888, concorrendo ao prêmio de viagem, é derrotado por Oscar Pereira da Silva. Rodolfo Amoedo, que o julgou injustiçado, promoveu campanha para angariar fundos que lhe possibilitassem a viagem à Europa, graças à qual ele partiu, no mesmo ano, para Paris, ali freqüentando as aulas de Jules Lefebvre, que exerceria grande influência sobre o seu estilo, sendo lícito ver, nos corpos de adolescentes pintados pelo brasileiro, algo da linearidade sensual e elegante do autor de La Verité.

A partir dessa primeira viagem a Paris, Belmiro irá alternar sua carreira entre o Brasil e a França, "aqui cavaqueando sempre, trabalhando às vezes, e obtendo encomendas; lá, realizando obras mais sérias, aprimorando a técnica, aguçando o espírito" (Celso Kelly). Em 1890, no Rio de Janeiro, num barracão do largo de São Francisco transformado em Ateliê Livre, realiza sua primeira exposição. No ano seguinte pinta para a Intendência Municipal uma fraca Apoteose ao 15 de Novembro, deixando perceber claramente não ser a pintura histórica o seu gênero de predileção. Escolhido por Rodolfo Bernardelli para substituir Pedro Weingärtner como professor de desenho, leciona na Escola Nacional de Belas Artes entre 1893 e 1896, e de novo em 1916, agora como professor de modelo vivo. Mas, perdendo para Fiúza Guimarães o concurso para o provimento da cátedra, abandona de vez o professorado, para o qual, aliás, nunca teve maior inclinação, e de novo embarca para a França, tão logo findo o conflito de 1914-1918. Naquele mesmo ano de 1916 fundara, com outros, o Salão dos Humoristas, aberto no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro com a participação de, entre outros, Raul, Calixto, J. Carlos, Helios Seelinger e Di Cavalcanti, com apenas 19 anos.

No Salão de 1906, Belmiro expôs uma de suas melhores obras – Dame à la rose, que causa emoção; no mesmo ano expõe Amuada, um óleo executado com brilho e vigor. Paralelamente, participa do Salon parisiense e vê certa feita recusado, como imoral, um nu, hoje no Museu Nacional de Belas Artes. O governo francês chegou a lhe encomendar um quadro sobre a Revolução de 1789, no qual retratou, entre os revolucionários, alguns brasileiros de passagem por Paris, como o poeta José Albano, o caricaturista Luís Peixoto e o pintor e diplomata Navarro da Costa.

Durante sua última permanência no Brasil, é um dos fundadores, em 1930, do Sindicato dos Artistas, do qual foi o primeiro presidente. Afasta-se do cargo pouco depois, para retornar a Paris, onde falece a 12 de junho de 1935, legando boa parte de seus bens à Escola Nacional de Belas Artes, para serem aplicados em obras de amparo a artistas desprovidos de recursos.

Desenhista excepcional, ótimo colorista, Belmiro possuía sensibilidade e inteligência abertas a todas as tendências. Em certas paisagens executadas em Dampierre, pouco antes da Guerra de 1914, praticou o Pontilhismo à maneira de Seurat; e chegou mesmo a flertar, embora por pura blague, com o Futurismo, no famoso Mulher em círculos, de 1921. Amava o carnaval e, como tantos de nossos melhores artistas da época – Bernardelli, os dois Timóteos, ambos os Chambellands, Fiuza Guimarães, Seelinger –, executou estandartes para clubes e cordões carnavalescos, e "tinha garbo em dizer que os pintava", como escreveu Luís Edmundo. Escultor, é de sua autoria uma das mais belas esculturas existentes em logradouros públicos do Rio de Janeiro – o Manequinho, interpretação livre do célebre Maneken-pis de Bruxelas. Caricaturista, chegou a colaborar com brilho no Assiette au Beurre de Paris, e preencheu com seu talento décadas de brilhante colaboração em dezenas de periódicos brasileiros, de A Semana ao Fon-Fon e de O Malho ao João Minhoca. Foi contudo como pintor que mais se destacou, tendo se revelado excelente figurista, embora praticasse praticamente todos os gêneros.

Consta ter representado Gonzaga Duque nos traços do marido que, em Arrufos – um de seus quadros mais célebres, pintado em 1887 – discute com a mulher, em meio a luxuoso ambiente. O crítico, por sua vez, retratá-lo-ia no personagem Agrário, do seu romance Mocidade morta, de 1899. Sempre preocupado com as algibeiras, tinha no negociante e grande amigo Antônio Ribeiro Seabra um mecenas e administrador atento de todas as suas economias, que fez grandemente prosperar. Como escreveu João Luso, "tirante a sua arte – quando a ela se entregava –, a única coisa que tomava a sério era aquela vigilância, aquela tutela, aquele cuidado permanente de o não deixarem empobrecer. Tudo o mais lhe parecia pouco respeitável e bastante cômico, a principiar pela sua pessoa. Como artista, achava a própria fisionomia – em que tudo parecia desenhar-se para dentro, menos o nariz, enristado como um aríete numa carranca de navio – extremamente mal-amanhada e grotesca. Ninguém lhe fez tão implacavelmente a caricatura como ele mesmo". Já Gonzaga Duque, que o conheceu na mocidade, dele traçou um perfil famoso, em Arte brasileira, ao comentar justamente sua obra-prima, Arrufos:

“É um mineiro que possui a verve, a sagacidade de um parisiense bulevardeiro. Na rua, de pé sobre a soleira de uma porta, no Café Inglês ou na Casa Havanesa, o seu tipo pequeno, forte, buliçoso, destaca-se da multidão. Quando solteiro foi um boêmio desregrado, um perfeito tipo à Murger. Entre camaradas, na rua do Ouvidor, com o narizinho arrebitado e atrevido farejando pacatos burgueses para lhes agarrar o ridículo, tinha na cabeça um cento de assuntos para pintar e em casa um cento de quadros para concluir. A sua predileta musa era a que inspirou e imortalizou Daumier e Gavarni e, a bem da verdade, deve-se dizer que depois de Borgomainerio e Bordalo Pinheiro ninguém tem feito, no Brasil, melhores caricaturas. Só depois de casado e depois de viajado; depois de ter visto de perto quanto trabalho e quanta dedicação são precisos para o artista conquistar um nome foi que ele abandonou a boêmia, de uma vez para sempre. A única coisa que ele jamais abandonará é a toilette. O vestuário é para Belmiro o que foi para Honoré de Balzac e para Alphonse Karr, o que é para Daudet e para Carolus-Duran, o que é para Leon Bonnat e Rochegrosse: uma feição artística, um sintoma de bom gosto e de asseio, ou como lhe chama o mestre, sr. Ramalho Ortigão, a expressão gráfica, pessoal, de uma filosofia”.

José Roberto Teixeira Leite
Extraído do livro Dicionário crítico da pintura no Brasil, ArtLivre, Rio de Janeiro, 1988 (versão digital em CD-ROM, Log On Informática, Rio de Janeiro, 1999).



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