Carlos Roberto Maciel Levy

Crítico e Historiador de arte

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Auto-retrato, 1916
Pinacoteca do Estado, São Paulo SP

Comemorações

Henrique Bernardelli 1858-1936
SESQUICENTENÁRIO DE NASCIMENTO EM 2008

Nascido em Valparaíso (Chile) e falecido no Rio de Janeiro, era filho de um violinista russo e de uma bailarina francesa que se radicaram no Rio Grande do Sul no começo da década de 1860, após terem viajado longamente pelo México e pelo Chile. Quando em 1865, Pedro II esteve em Porto Alegre, ali conheceu os Bernardelli, convidando-os a virem para o Rio de Janeiro, onde efetivamente já se encontravam em 1867 como preceptores das princesas imperiais.

Matriculando-se na Academia Imperial de Belas Artes, que cursou até 1878, foi aluno de João Zeferino da Costa, Vítor Meireles e Agostinho da Mota, entre outros, tendo conquistado impressionante número de prêmios e distinções: menção em Desenho de ornatos (1871), pequena e grande medalha de ouro em Desenho Figurado (1872 e 1874), medalha de prata em Pintura Histórica (1876), pequenas medalhas de ouro em Pintura Histórica e Modelo Vivo (1878). Ao concorrer, porém, à viagem à Europa, no mesmo ano de 1878, foi derrotado por Rodolfo Amoedo. Magoado com a preterição, que parece ter sido injusta, até porque Amoedo nem mesmo havia concluído o curso, decidiu partir por conta própria para a Itália, radicando-se em Roma, como discípulo de Domenico Morelli.

Regressando ao Brasil em 1886, Henrique realizou no Rio de Janeiro uma exposição em que apresentou, entre outras muitas obras, Tarantela, Maternidade, Messalina, Modelo em repouso e Ao meio-dia. A mostra foi mal recebida, menos por Gonzaga Duque, que assim a ela se referiu em Arte brasileira:

“Os defeitos de Bernardelli foram qualidades. Um revolucionário, um inovador, não pode ser um frio desenhador da linha, nem um colorista preciso. É necessário que ele seja diferente, que seja resoluto, que pinte o que sente sem artifícios antigos, mas por artifícios modernos, porque, afinal de contas, o estilo não é mais do que um artifício empregado para exprimir as nossas emoções”.

A incompreensão de crítica e público em face da mostra de 1886 parece ter arrefecido o ímpeto do jovem artista que, a partir de então, e apesar de poucas obras notáveis, tornou-se mais cauteloso e conservador. Perderia algo daquela "maneira sólida, segura e franca" dos quadros realizados na Itália, adotando um estilo mais convencional, que por volta de 1908 chegara ao esgotamento e à conseqüente repetição: já no Salão de 1904, os retratos de Machado de Assis e Ubaldino do Amaral que expõe, merecem de Gonzaga Duque o reparo de que foram "pintados por mão de mestre, mas, não sei porque, temperados com chocolate".

Na verdade, como tantos de nossos melhores pintores de seu tempo, Henrique Bernardelli teve de seguir as duas únicas opções que se abriam a um artista brasileiro: lecionar, ou executar retratos e encomendas oficiais. Foi o que fez, dobrando-se, assim, ao gosto tradicional. De 1891 a 1905, lecionou na Escola Nacional de Belas Artes. Homem de probidade e de idéias arejadas, não aceitou que seu contrato fosse renovado naquele último ano, alegando que aos alunos devem ser oferecidos, de tempos em tempos, novos professores, para que o ensino não se torne esclerosado! Passou a ensinar pintura em sua propria residência em Copacabana, por onde passaram, entre inúmeros outros, Lucílio e Georgina de Albuquerque, Eugênio Latour, Helios Seelinger e Artur Timóteo da Costa. Prova concreta de quanto eram prezados pelos jovens artistas os dois Bernardelli, Rodolfo e Henrique, deu-se em 1931, quando um grupo de alunos da Escola Nacional de Belas Artes criou um ateliê livre de pintura, nos porões da instituição, batizando-o com o nome de Núcleo Bernardelli.

Pintor decorativista, Bernardelli fez painéis para o Teatro Municipal, para a Biblioteca Nacional, para o Cinema Pathé-Palácio; trabalhou ainda para o Museu Paulista. Mas suas obras mais importantes, no gênero, são os 22 medalhões em afresco que ornam a fachada do atual prédio do Museu Nacional de Belas Artes, na Avenida Rio Branco, expostos em 1916 no Salão e que lhe valeram a medalha de honra.

Bernardelli teve defensores entusiásticos, mesmo no ocaso da sua carreira. Assim, Angione Costa dele fala, em A inquietação das abelhas, de 1927:

“Henrique Bernardelli é um pintor que, na segunda metade da vida, sem marcar uma evolução acentuada, consegue entretanto, pintar belos quadros, nos quais o colorido é uma maravilha, e o seu pincelar seguro, um prodígio de concisão”.

Exagero sem dúvida, porquanto, após os 50 anos, Bernardelli aquietara-se, perdera os ferrões da mocidade, academizara-se em suma. O que doravante iria perpassar em sua produção seriam ecos do que anteriormente fizera, produtos concebidos e executados mecanicamente e sem emoção; nem mais aqueles "temas helênicos, influência da dança antiga, raras ressonâncias simbolistas", ou os modismos estilísticos Belle Époque que lhe surpreendeu Mário Barata; mas as composições do tipo A saúde da bela!, de um rococó anacrônico e anêmico, chupado em Fragonard e em outros artistas franceses do séc. XVIII e mesmo do séc. XIX. A que distância está-se, já agora, de Messalina, ou dos Bandeirantes!.

Henrique Bernardelli foi pintor de história e de gênero, retratista e paisagista. Praticou diversas técnicas - o óleo, a têmpera, o fresco, o pastel, a aquarela, a água-forte. Sua produção encontra-se distribuída principalmente entre o Museu Nacional de Belas Artes (120 obras de diferentes épocas e técnicas) e a Pinacoteca do Estado de São Paulo (344 desenhos, 41 aquarelas e ainda óleos). Maternidade, Tarantela, Bandeirantes, Proclamação da República são seus quadros mais conhecidos, mas não forçosamente os melhores, pois o verdadeiro Bernardelli revela-se em detalhes, aqui na vibração de uma nota de cor, ali na elegância de um arabesco ou num trecho de fatura surpreendentemente moderna, feito mediante um pincelar ágil e seguro.

José Roberto Teixeira Leite
Extraído do livro Dicionário crítico da pintura no Brasil, ArtLivre, Rio de Janeiro, 1988 (versão digital em CD-ROM, Log On Informática, Rio de Janeiro, 1999).



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