Carlos Roberto Maciel Levy

Crítico e Historiador de arte

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Visitando o Museu Nacional de Belas Artes

No dia 25 de junho último [1997] o jornalista Artur Xexéo publicou, em sua coluna no Jornal do Brasil, uma divertida e realista matéria sobre a suposta revitalização do centro da cidade do Rio de Janeiro, visitado em um fim-de-semana. Nela, incluiu uma crítica sobre a situação atual do Museu Nacional de Belas Artes, protestando contra a péssima iluminação das diversas exposições e contra a precariedade dos sistemas de atendimento e informação aos visitantes (que eram muito escassos, conforme notou).

Há muito tempo não visitava o MNBA, por diversas circunstâncias alheias à minha vontade, e como também não tenho tido muitas oportunidades de ir ao centro da cidade, o texto do colunista animou-me a provar, no sábado passado (05/07/1997), as experiências que ele descrevera no jornal. No que se refere ao centro do Rio, aos sábados, domingos e feriados, pouco há que acrescentar: continua como sempre um deserto quase total, ficando mais nítidos o mal trato ou o tratamento indigno de um panorama arquitetônico e histórico que seria a fortuna paradisíaca de qualquer outra cidade. Nem consigo imaginar como alguém se anima a conviver com aquela região nos fins-de-semana, considerando que o Rio de Janeiro é hoje muito violento e não vi sequer um único policial ou traços de autoridade pública, tendo visto, entretanto, centenas de desabrigados, mendigos, bêbados, flanelinhas e muitos personagens típicos da fronteira sombria entre a pobreza e a marginalidade.

Já a visita ao MNBA foi bem diferente. De fato pude ver o museu descrito pelo jornalista, com todas as características patéticas de inteira indiferença à sua natureza pública. É mesmo, talvez, uma questão de carência de auto-estima, que possivelmente depende menos do museu e mais do contexto que ocupa na atualidade. Mas também vi um outro museu, que o olhar especializado e a experiência profissional revelam com clareza, e esse outro museu teria certamente horrorizado Artur Xexéo. Pelo que vi, posso afirmar categoricamente que o maior e mais importante museu federal dedicado à história da pintura no Brasil encontra-se alheio às principais e mais básicas considerações técnicas na apresentação de suas coleções.

A questão da iluminação, que pertence ao museu visto pelo jornalista quando significa desrespeito aos visitantes e impossibilidade de apreciar as obras de arte, torna-se no museu dos especialistas uma violenta agressão por significar também menosprezo às obras de arte que são o testemunho insubstituível de nossa cultura. Não distinguir o que se encontra diante de nossos olhos talvez seja menos grave do que ter nossa percepção iludida pelo que pensamos estar vendo. E isso é inevitável em pinturas magistrais, de épocas remotas, cujas características estéticas são cruelmente falseadas por dezenas de tipos de luzes e dispositivos de iluminação diferentes, todos tão insuficientes quanto inadequados. O sensível e misterioso retrato do marinheiro Simão, de José Correia de Lima, ou as paisagens setecentistas de Frans Post, jamais conseguirão revelar suas notáveis qualidades, para leigos ou especialistas, se submetidas como estão a uma iluminação hostil e imprópria. E nesse processo tais obras acabam destituídas de sua dignidade, de seu atrativo simbólico que é o mais poderoso fator de empatia com o público e seu mais original recurso de informação cultural.

O mesmo pode ser dito dos métodos e dispositivos de fixação das pinturas. São tão precários e inadequados que poucas obras vi que estivessem niveladas, numa cabal demonstração de desleixo seja na montagem das exposições ou na sua indispensável manutenção periódica. E não se trata apenas de um problema de comunicação visual, não obstante esse seja gravíssimo pela inexistência de qualquer padrão perceptível (pobres paisagens de Boudin, que dependem da eventual deformação anatômica dos visitantes, que precisariam ter os olhos no tórax para contemplá-las com um mínimo de conforto!), mas também da segurança intrínseca desses tesouros de nossa história artística: é verdadeiramente chocante constatar que os milhões de dólares representados por duas grandes paisagens de Post, em pesadas molduras, possam estar pendurados apenas em linhas de nylon quando com as mesmas despesas e trabalho poderiam estar fixadas por cabos de aço. A diferença entre um e outro sistema sempre poderá ser demonstrada, de maneira brutal e irreversível, pela queda de um frágil painel de madeira, pintado há mais de 300 anos, e sua conseqüente destruição.

Dirão alguns que tudo isso se deve à falta de recursos financeiros, uma velha desculpa esfarrapada que há séculos ilude e ameaça os brasileiros, como hábil manobra para distraí-los do que é óbvio e imperdoável: falta de responsabilidade pública, intelectual, moral e profissional. Se essas fossem deficiências provocadas pela escassez de dinheiro, então não estariam presentes na nova sala dedicada à antiga pintura italiana no MNBA. Instalada e mantida pela multinacional de seguros Generali, como indica a inevitável assinatura de marketing, a sala exibe as mesmas deficiências presentes nas demais exposições, da iluminação péssima (o que inclui pelo menos uma pintura "invisível", ou seja, em total escuridão) ao grotesco desnivelamento horizontal e vertical das obras sobre as paredes, ou às legendas de identificação colocadas em todas as posições ilegíveis que se possa imaginar.

E com isso chegamos ao terceiro Museu Nacional de Belas Artes, que não foi visto nem por Artur Xexéo nem por mim em nossas recentes visitas. Falo agora daquele tipo de instituição cultural, ou de instituição pública em geral, que só é vista por autoridades, políticos e potentados da sociedade, por ministros e presidentes: o MNBA dos dias de festa, de inaugurações e coquetéis, de recepções suntuosas ou de eventos mudanos passageiros. Imagino que esse museu deve parecer muito bem para os que o visitam, com o olhar ligeiro e desinteressado, com os óculos de Pangloss firmemente assentados no nariz, com o delírio da superficialidade egocêntrica que é um atributo típico da ignorância. Ora, mas o olhar que pode vê-lo não é o olhar do público, dos jornalistas ou dos especialistas em arte, e nem mesmo dos turistas confusos e decepcionados como os que lá estavam durante minha visita. E de qualquer modo essas três versões de um mesmo museu não são em nenhuma hipótese aceitáveis, contem ou não com a aprovação de ministros e burocratas do governo. Aquele edifício não foi construído por nossos atuais governantes e dirigentes culturais, mas foi pago pelos impostos de nossos pais e avós; e todas aquelas obras também não foram adquiridas por eles, governantes de hoje, mas foram selecionadas e reunidas com o esforço e a dedicação de gerações inteiras de estudiosos ilustres que assim fortaleceram os traços de nossa identidade artística e cultural.

Isso posto, permanece contudo uma dúvida intrigante: tantos e tão primários erros de organização e apresentação de exposições poderão significar que o MNBA não possui uma equipe técnica qualificada? Será tudo isso decorrência da minimalização de um Estado que de tão pequeno está se tornando um pigmeu moral, incapaz de lidar com gigantes como Frans Post ou Pedro Américo? Bem, não sei responder a essa pergunta, pois tenho o privilégio de conhecer bem e respeitar a qualificação profissional de alguns curadores que há longos anos trabalham no MNBA. E foge inteiramente à minha compreensão que tal estado de coisas possa ser instaurado e persistir em uma instituição à qual eles estejam associados, pois são, em ultima análise, os primeiros responsáveis pelas soluções técnicas a serem adotadas em um museu. Salvo se, por maligna e insana opção do governo, o Museu Nacional de Belas Artes tenha sido efetiva e definitivamente esquartejado nas três diferentes e tenebrosas versões aqui comentadas, diante da arcádica e impotente omissão de seu corpo técnico e da passividade da opinião pública.

 

Originalmente publicado no JORNAL DA CRÍTICA, da Associação Brasileira de Críticos de Arte,
número 4, janeiro de 1998, p.5



TEXTO:
Copyright © Carlos Roberto Maciel Levy, 1998-2015. Todos os direitos reservados.

FOTOGRAFIA:
Raul Lima, Rio de Janeiro RJ

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